07 maio 2008


'um culto apaixonado pela natureza, uma tranquilla confiança na vida, um sorriso perante tudo e todos, são certamente caracteristicas, que distinguem a alma do japonez moderno' [p.20]

'A irritabilidade do paiz, manifestada por convulsões disturbantes, trazidas por uma longa série de phenomenos naturaes, correpsonde a irritabilidade do homem. O japonez, tam comedido, tam sereno, é sujeito a irritabilidades subitas' [p.22]

'os japoneses e as japonezas desconhecem totalmente o namoro, os jogos de olhares, os sorisos insinuantes, toda essa complicada diplomacia sexual em que os povos do Occidente se mostram mestres' [p.92]

Wenceslau DE MORAES [1925] Relance da Alma Japonesa, Lisboa: Livraria Bertrand


imagem: Bilhete postal de Wenceslau de Morais a F. A. Chedas Sant'Anna, 24 Dez. 1910, Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Biblioteca Nacional, BNP Esp. N6/101

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07 março 2008

Portugal Moderno



'O novo Código de Posturas Municipais de Chaves penaliza, entre outras transgressões, quem pisar um canteiro público, defecar fora dos locais apropriados, tomar banho em lavadouros públicos, varejar uma árvore ou arrancar-lhe os frutos.

Também é multado, com coimas de cinco euros, quem deixar as galinhas soltas pelas ruas ou, em 10 euros, quem soltar os cães na via pública.

Segundo João Baptista, o regulamento veio preencher o vazio legal deixado por outro tipo de regulamentação.

«Não tínhamos lei que proibisse algumas situações como por exemplo um indivíduo que se lembra de urinar na rua ou de alguém que entra com um rebanho pela cidade», frisou o autarca'

SOL

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28 fevereiro 2008


'The only men who, as I opine, ought to be allowed the use of Clubs, are married men without a profession. The continual presence of these in a house cannot be thought, even by the most loving of wives, desirable. Say the girls are beginning to practise their music, which in an honourable English family, ought to occupy every young gentlewoman three hours; it would be rather hard to call upon poor papa to sit in the drawing-room all that time, and listen to the interminable discords and shrieks which are elicited from the miserable piano during the above necessary operation. A man with a good ear, especially, would go mad, if compelled daily to submit to this horror'

[chap.xxxvii, 'Club Snobs']

William M. THACKERAY [1848] The Book of Snobs

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25 fevereiro 2008

A espera e o barrote


Um jornalista ou comentador desportivo chamado Rui Santos foi aguardado por 4 indivíduos, 3 dos quais terão tentado agredi-lo com uma barra de ferro quando este se encontrava junto ao seu carro no parque de estacionamento da SIC.

Não percebo nada de futebol e não fço ideia quem é este senhor, mas seja quem for não é aceitável que numa democracia se façam esperas e que haja espancamentos.

Isto reforça a tese do défice democrático em Portugal -- que não se faz apenas por decreto nem Constituição -- e também da chamada crise civil iminente.

Há quem se mova em Portugal como se de uma quinta de tratasse, e como de um caseiro se tratasse. E não é necessariamente people in high places: basta ser um qualquer gang do submundo. Uma espécie de Moe armado 8não o do bar do Homer, mas o da escola do Calvin). E Portugal está cheio deles.

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23 fevereiro 2008

20 fevereiro 2008

Sobre a Crise Portuguesa

SEDES
TOMADA DE POSIÇÃO - FEVEREIRO 2008


1) UM DIFUSO MAL ESTAR
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

Nem todas as causas desse sentimento são exclusivamente portuguesas, na medida em que reflectem tendências culturais do espaço civilizacional em que nos inserimos. Mas uma boa parte são questões internas à nossa sociedade e às nossas circunstâncias. Não podemos, por isso, ceder à resignação sem recusarmos a liberdade com que assumimos a responsabilidade pelo nosso destino.

Assumindo o dever cívico decorrente de uma ética da responsabilidade, a SEDES entende ser oportuno chamar a atenção para os sinais de degradação da qualidade da vida cívica que, não constituindo um fenómeno inteiramente novo, estão por detrás do referido mal estar.


2) DEGRADAÇÃO DA CONFIANÇA NO SISTEMA POLÍTICO

Ao nível político, tem-se acentuado a degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, praticamente generalizada a todo o espectro político.

É uma situação preocupante para quem acredita que a democracia representativa é o regime que melhor assegura o bem comum de sociedades desenvolvidas. O seu eventual fracasso, com o estreitamento do papel da mediação partidária, criará um vácuo propício ao acirrar das emoções mais primárias em detrimento da razão e à consequente emergência de derivas populistas, caciquistas, personalistas, etc.

Importa, por isso, perseverar na defesa da democracia representativa e das suas instituições. E desde logo, dos partidos políticos, pilares do eficaz funcionamento de uma democracia representativa. Mas há três condições para que estes possam cumprir adequadamente o seu papel.

Têm, por um lado, de ser capazes de mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço; por outro lado, a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade e o Estado, coarctando a necessária e vivificante diversidade e o dinamismo criativo; finalmente, não devem ser um objectivo em si mesmos...

É por isso preocupante ver o afunilamento da qualidade dos partidos, seja pela dificuldade em atrair e reter os cidadãos mais qualificados, seja por critérios de selecção, cada vez mais favoráveis à gestão de interesses do que à promoção da qualidade cívica. E é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural.

Estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica. O que, em última instância, não deixará de se reflectir na qualidade de vida dos portugueses.


3) VALORES, JUSTIÇA E COMUNICAÇÃO SOCIAL

Outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas.

Com ou sem intencionalidade, essa combinação alimenta um estado de suspeição generalizada sobre a classe política, sem contudo conduzir a quaisquer condenações relevantes. É o pior dos mundos: sendo fácil e impune lançar suspeitas infundadas, muitas pessoas sérias e competentes afastam-se da política, empobrecendo-a; a banalização da suspeita e a incapacidade de condenar os culpados (e ilibar inocentes) favorece os mal-intencionados, diluídos na confusão. Resulta a desacreditação do sistema político e a adversa e perversa selecção dos seus agentes.

Nalguma comunicação social prolifera um jornalismo de insinuação, onde prima o sensacionalismo. Misturando-se verdades e suspeitas, coisas importantes e minudências, destroem-se impunemente reputações laboriosamente construídas, ao mesmo tempo que, banalizando o mal, se favorecem as pessoas sem escrúpulos.

Por seu lado, o Estado tem uma presença asfixiante sobre toda a sociedade, a ponto de não ser exagero considerar que é cada vez mais estreito o espaço deixado verdadeiramente livre para a iniciativa privada. Além disso, demite-se muitas vezes do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam em muitos um perigoso rasto de desconfiança.

Num ambiente de relativismo moral, é frequentemente promovida a confusão entre o que a lei não proíbe explicitamente e o que é eticamente aceitável, tentando tornar a lei no único regulador aceitável dos comportamentos sociais. Esquece-se, deliberadamente, que uma tal acepção enredaria a sociedade numa burocratizante teia legislativa e num palco de permanente litigância judicial, que acabaria por coarctar seriamente a sua funcionalidade. Não será, pois, por acaso que é precisamente na penumbra do que a lei não prevê explicitamente que proliferam comportamentos contrários ao interesse da sociedade e ao bem comum. E que é justamente nessa penumbra sem valores que medra a corrupção, um cancro que corrói a sociedade e que a justiça não alcança.


4) CRIMINALIDADE, INSEGURANÇA E EXAGEROS

A criminalidade violenta progride e cresce o sentimento de insegurança entre os cidadãos. Se é certo que Portugal ainda é um país relativamente seguro, apesar da facilidade de circulação no espaço europeu facilitar a importação da criminalidade organizada. Mas a crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência.

Ora, para além de alguns fogachos mediáticos, não se vê uma acção consistente, da prevenção, da investigação e da justiça, para transmitir a desejada tranquilidade.

Mas enquanto subsiste uma cultura predominantemente laxista no cumprimento da lei, em áreas menos relevantes para as necessidades do bom funcionamento da sociedade emerge, por vezes, uma espécie de fundamentalismo utra-zeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom-senso.

Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou.

E nesta matéria a responsabilidade pelo desproporcionado zelo utilizado recai, antes de mais, nos legisladores portugueses que transcrevem para o direito português, mecânica e por vezes levianamente, as directivas de Bruxelas.


5) APELO DA SEDES

O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.

A sociedade civil pode e deve participar no desbloqueamento da eficácia do regime – para o que será necessário que este se lhe abra mais do que tem feito até aqui –, mas ele só pode partir dos seus dois pólos de poder: os partidos, com a sua emanação fundamental que é o Parlamento, e o Presidente da República.

As últimas eleições para a Câmara de Lisboa mostraram a existência de uma significativa dissociação entre os eleitores e os partidos. E uma sondagem recente deu conta de que os políticos – grupo a que se associa quase por metonímia “os partidos” – são a classe em que os portugueses menos confiam.

Este estado de coisas deve preocupar todos aqueles que se empenham verdadeiramente na coisa pública e que não podem continuar indiferentes perante a crescente dissociação entre o conceito de “res pública” e o de intervenção política!

A regeneração é necessária e tem de começar nos próprios partidos políticos, fulcro de um regime democrático representativo. Abrir-se à sociedade, promover princípios éticos de decência na vida política e na sociedade em geral, desenvolver processos de selecção que permitam atrair competências e afastar oportunismos, são parte essencial da necessária regeneração.

Os partidos estão na base da formação das políticas públicas que determinam a organização da sociedade portuguesa. Na Assembleia ou no Governo exercem um mandato ratificado pelos cidadãos, e têm a obrigação de prestar contas de forma permanente sobre o modo como o exercem.

Em geral o Estado, a esfera formal onde se forma a decisão e se gerem os negócios do país, tem de abrir urgentemente canais para escutar a sociedade civil e os cidadãos em geral. Deve fazê-lo de forma clara, transparente e, sobretudo, escrutinável. Os portugueses têm de poder entender as razões que presidem à formação das políticas públicas que lhes dizem respeito.

A SEDES está naturalmente disponível para alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo que forem efectiva e produtivamente activadas.


Sedes, 21 de Fevereiro de 2008

O Conselho Coordenador
(Vitor Bento (Presidente), M. Alves Monteiro, Luís Barata, L. Campos e Cunha, J. Ferreira do Amaral, Henrique Neto, F. Ribeiro Mendes, Paulo Sande, Amílcar Theias)

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10 outubro 2007

'Le respect mutuel, c'est classe'


Bilhete de comboio, Bruxelas, 2oo7.

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02 outubro 2007

A morte do pai do Chefe de Estado.



O pai do Presidente da República Cavaco Silva chamava-se Teodoro. Descobri porque se escreveu sobre isso no DN e duas vezes, e na TSF, entre outros órgãos de comunicação social.

Não percebo que a morte do senhor seja 'notícia' dado que aquilo que torna o senhor Teodoro Silva 'famoso' é o seu filho, actual 'Chefe de Estado'.

Sobretudo numa democracia, onde é suposto não haver cultos de personalidade, neste caso levada ao extremo [pelo menos do ponto de vista genealógico...].

Claramente os jornalistas não têm mais que fazer.

E os leitores / ouvintes / telespectadores nenhuma exigência quanto à qualidade dos conteúdos.

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28 setembro 2007

e-Government, ma non troppo.


No DN de 2o.o9.2oo7 uma reportagem com o título'Portugal nos 'tops' no 'e-government' europeu' é ilustrada com a página online do Diário da República.

O que o artigo não diz -- e que espero que o ranking não contemple -- é o facto de grande parte do Diário da República online é de acesso pago ou, como refere o dito site [e visível na ilustração do DN], 'Serviço de Assinatura - Informação de Valor Acrescentado', sendo necessária a 'Validação do Utilizador', na área de 'Acesso Reservado a Assinantes do DRE', introduzindo-se o nome/número de utilizador e uma password...

'E o que são estes serviços de valor acrescentado / assinaturas?', pergunta o leitor. Desde logo, os 'Diários da República' [ou seja legislação e afins] com mais de um mês.

Se só tivéssemos de cumprir a legislação até um mês da data de consulta não era mau. Mas não é o caso.

Será esta a forma de estimular o acesso dos portugueses à informação jurídica e, em especial, estimular o conhecimento e cumprimento das leis?

imagem: o 'Diário do Governo', predecessor do DR, tal como as 'Cortes' e a 'Assembleia Nacional' antecederam a AR.

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27 setembro 2007

Requeijão Connection.


A minha ligação a Seia é uma: o requeijão.

Adoro aquele requeijão.

Simples, ou num bom pão, ou numa salada, ou num pudim. Etc..

Parece que em Seia há uma localidade chamada Várzea de Meruge.

Li num e.mail que me mandaram e que pelos vistos anda a circular que 'a população cansou-se de pedir ao presidente da Junta que reparasse o piso de uma rua. Vai daí, decidiu plantar couves nos buracos... e agradecer ao presidente'.

Delicioso.

Suponho que em Lisboa haja uma equivalência.

Por exemplo, nos sítios onde faltam passeios ou onde -- quão frequente -- a estúpida insistência na 'calçada portuguesa' -- que apenas é bonita se bem mantida -- faz com que haja buracos por todo o lado e se passe a vida a tropeçar, ou escorregar, caso nos aventuremos a andar a pé na acidentada capital.

Podemos pois pedir aos habitantes de Várzea de Meruge que nos emprestem umas couves.

Sempre animavam a pálida calçada portuguesa, e sempre podíamos agarrar-nos a elas quando escorregássemos.

Quem disse que Lisboa não precisava da Várzea?

E já agora, do Entroncamento. Pois só uma couve gigante seria capaz de tapar esse grande buraco que é o orçamental.

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21 setembro 2007

Os clubes.


'The clubs proper were then limited in number, and Leigh's list contains but eleven. Of these the Albion, Arthur's, Boodle's, and White's, were in St. James's Street; the Alfred and the United Service were in Albemarle Steet, and the Union in St. James's Square. Those that still exist and have changed their venue since 1818 -- the date of this list -- are the Union which went to its present home in 1822, and the United Service which migrated to Pall Mall in 1822, to premises built by Nash. The clubs may be said to have been the focus of much of the west end life of the period, but except in one particular, they can hardly be regarded as centres of amusement'.

E. Beresford CHANCELLOR [1926] Life in Regency and Early Victorian Times - An account of the days of Brummel and d'Orsay 18oo to 185o, London: B.T. Batsford, p.5

imagem: George CRUIKSHANK [c.183o] The Headache.

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19 setembro 2007

Getting old.


A Teresa, again [depois de corrigidos os erros ortográficos e acrescentados 'bolds' e uns vídeos...].

'Sexta-feira, Setembro 24, 2004
As Rugas, tal como as conhecemos (ou devíamos conhecer) [baï Teresa]


Acho que nos podemos deparar com um fenómeno sociológico interessante quando pensamos na faixa etária que, em geral, predomina na noite nos tempos que correm.

[...]



Sim, é verdade, é só crianças... Homenzinhos aos quais temos vontade de apertar as bochechas e de espetar um pacote de leite com chocolate na boca, ao mesmo tempo que admiramos a sua delicada pele tão branca e tão suave, ainda não corrompida pelas violências deste mundo cão.

E o que fazer quando a discoteca mais conhecida de Lisboa esta superpopulação desses seres irritantes e vivazes, que fervilham os sítios públicos como uma praga de gafanhotos com o cio? Gritar? Protestar? Insurgir-se? Não, meus amigos, não... a resposta é muito mais simples e esta, infelizmente, a frente dos nossos delicados narizes. A resposta é: Nada.

[...]

Ao longe se vão os dias em que íamos para as discotecas repletas de “mais velhos”. E que éramos umas “pitas” que mentiam sobre a própria idade para serem levadas para um canto escuro sem muitos remorsos.

Tudo era brilhante e fascinante, e nem por isso era eticamente reprovável andar a frente de toda a gente aos beijinhos com um rapazinho que tínhamos acabado de conhecer,e na noite seguinte outro, e na noite seguinte outro (não sei se alguma vez repararam: mas a adolescência foi uma autentico paraíso sexual de plurigamia e liberalismo). Those days are gone my friends.

Este é, realmente, o eterno drama feminino: o tempo passa e uma mulher começa a ver que está velha, gorda, e que já ninguém a quer. E, enquanto um homem de quarenta anos tem todas as possibilidades de ser um “Dr charmoso” (com o seu Jaguar e os seus cabelos brancos tão sexys), uma mulher a partir dessa mesma idade é uma amálgama confusa de pedaços de carne decompostos e de peles estranhíssimas por toda a parte.

Ninguém a quer, e o homem troca-a por uma rapariga de vinte anos. O homem, esse, continua a viver feliz e contente na boa vida até ao final dos seus dias.



É assim que a sociedade esta construída. Um Homem velho é um “Senhor”, uma mulher velha é uma “Velha”. Posto isto, as mulheres a partir dos seus vinte anos, têm que começar a tratar do seu lugar na sociedade que as rodeia. Há que casar o mais cedo possível , não andar ai a saltar de um para outro; pois, consciente ou inconscientemente, sabem que, quando chegarem aos 40 anos, encontrar um homem tratar-se-á de uma missão quase impossível.

Eu não... eu não consigo, eu sou o que se chama a atrasada mental que continua a remar contra a corrente, asnamente, porque ainda não percebeu que o sistema é maior do que ela. E como tal, enquanto que as minhas amigas estão em casa ,demasiado ocupadas a tratar do seu futuro conjugal (com os seus Jões) esquematicamente perfeito e da sua futura família concorrente a anúncios em pacotes de cereais Corn Flakes, eu continuo obstinadamente a frequentar os sítios que claramente já não são para a minha idade; deparando-me, a cada dia, com a realidade que finjo não ver.



Finalmente, hoje dou por mim a partilhar a minha crise existencial com a senhora que me faz a depilação (a Graça); o que, algo me diz, não pode ser bom sinal.


Acho que deviam avisar as pessoas, sinceramente... falam tanto da “crise da meia idade” da “crise da adolescência” da “menopausa” da “andropausa” e do caneco e do camandro... também deviam falar da “fase pela qual as pessoas passam quando percebem que estão a ficar adultas mas que querem ficar adolescentes para sempre”'.

imagem: Quinten MASSYS [1525-30] A Grotesque Old Woman, National Gallery, Londres.

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18 setembro 2007

Tráfico de influências em Portugal.


'[...] For a new era of openness among Portugal’s law firms to succeed, transparency in the Government and among clients is a must, which will be difficult in a market where a relatively small number of elite families occupy positions of power and authority. Complaints have been raised about those firms with family links to the Government using their connections to win mandates. The tender processes for the building of the new airport for Lisbon and the high-speed TGV rail link between Lisbon and Madrid — valued at E4bn (£2.7bn) and E7.5bn (£5.1bn) respectively — which are set to provide business for the next few years, will offer the opportunity to show whether politics still plays a significant role in the legal market [...]'

Claire RUCKIN, 'Iberia: Talking about a generation', in Legal Week, 11.2.2007

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13 setembro 2007

Scolari é um copinho de leite...

... ao pé destas 'meninas' [e neste caso a PJ pode bem dizer que tem provas...].





Sobre o episódio 'Scolari entre os Sérvios', apenas 3 notas:

(i) um treinador, sobretudo da selecção nacional, num jogo de importância, não pode andar à estalada. Dá péssima imagem de si, dos clubes, do país, e de um desporto que os que não o apreciam criticam, muitas vezes, como de broncos, para não dizer pior. Casos destes acabam por ser generalizados, com as consequências que se conhecem, e péssimas para quem gosta de futebol;

(ii) é evidente, pelo vídeo, que foi um murro. E a desculpa de proteger Quaresma é ridícula. Desde logo dado que Quaresma é bem mais novo [sem ser criança...], desportista e musculado, e certamente bem mais capaz de se defender do que seria Scolari...

(iii) com os portugueses entretidos com Scolari e Maddie, o Governo e a Assembleia da República [que como se viu recentemente, tem mais popularidade quando está inactiva] bem podem ir de férias prolongadas.

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'People connected with literature and philosophy are busy all their days in getting rid of second-hand notions and false standards. It is their profession, in the sweat of their old fresh view of life, and distinguish what they really and originally like, from what they have only learned to tolerate perforce'.

Robert Louis STEVENSON [1913] An Inland Voyage, London: Chatto&Windus, p.19 [a primeira edição é de 1878]

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09 setembro 2007

Ainda a Teresa. Até porque me estou nas tintas para o tema do dia.




'Hoje vou falar um bocadinho e dizer mal, daquelas pessoas que aparecem nas revistas, e que ninguém sabe quem são.
(Há gente que anda para ai a dizer à boca cheia que os textos do Sem Wonderbra são sempre a dizer mal, e que insinua que a única coisa que eu sei fazer é criticar gratuitamente tudo e toda a gente à minha volta. Para que fique bem claro: É verdade).



Até há algum tempo, admito, o fascinante universo da “Caras” e outra sucursais afins tinha-me passado completamente ao lado. Não fazia ideia do que acontecia dentro dessas revistas. Só passei a dar vistas de olhos nelas recentemente, com a intenção de fazer textos de stand up sobre pessoas conhecidas. Não se trata aqui de nenhum pretensiosismo intelectual da minha parte; mas sim apenas uma breve introdução para dizer que acho fascinantes essas revistas. Sobretudo no que diz respeito a reportagem de paginas inteiras sobre pessoas que ninguém faz a mínima ideia de quem são ou o que poderão eventualmente estar ali a fazer. E que toda a gente aceita, como sendo uma coisa perfeitamente normal.



Ainda pensei que fosse a minha ignorância a falar mais alto, e que esses seres misteriosos fossem na verdade “o famoso Zé Mané que entrou recentemente no programa da manhã não sei de onde” (e que eu não conhecia, e que era escandaloso, e em que mundo é que eu vivia), mas não. Procurei inteirar-me do assunto: são mesmo pessoas que ninguém conhece.
Seres estranhos que por certo acharam interessante pagar a alguém para ir a casa deles fazer uma reportagem sobre a sua desinteressantíssima vida. E que não se sabe bem como, continuam a proliferar.
Ainda reportagens sobre gente famosa, vá. Há que admitir, tem o seu quê de interessante. Mas reportagens sobre gente que ninguém conhece e que ainda por cima não faz nada de relevante na vida? Porquê?
Como, pergunto eu, querem que o pais ande para a frente, se metade da população anda a ver reportagens sobre “Mituxa Sá e Castro, na sua casa em Alfornelos-a-velha, está muito contente com a chegada do seu terceiro filho” (primeiro plano: fotografia de Mituxa Sá e Castro, uma pseudo-tia de meia idade, com um marido infelicíssimo, gordíssimo, ao lado, e dois putos ranhosos sentados no chão a torturar um golden retriever) (segundo plano: uma casa). Chegamos ao fim da reportagem, e não sabemos quem é a Mituxa Sá e Castro, o que é que ela está ali a fazer, nem o quê de novo pode ela ter trazido ao mundo. Apenas que ela esta à espera do seu terceiro filho, e que isso pelos vistos vale por si como sendo uma coisa muito positiva.



Como representante do povo português, e de todos os leitores da revistas Caras, TV Guia, e Mariana mais atrevida, exijo uma renovação no sistema. Exijo a reposição da dose diária de “Benedita Pereira conhece o amor da sua vida em férias de sonho na Cova de Santo Adrião” para toda a população. Pelo menos assim quem não tem vida própria pode pacificamente voltar a receber a sua dose semanal de merda ao quilo sobre gente famosa, que é o que aliás paga para ler, honestamente, com o suor do seu salário mínimo nacional aumentado a 3 por cento este ano. Mas isto assim não. Isto assim é um ultraje, e é um escândalo'.

Teresa Lopes Vieira AKA Sem Wonderbra, Quinta-feira, Dezembro 08, 2005, '
Aquelas pessoas que aparecem nas revistas, e que ninguém sabe quem são'

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Os tótós.


.[...] Estarei eu tão obcecada com as coisas profanas deste mundo, ao ponto de difamar o próprio sistema do Estado com bagatelas e vulgaridades? Não saberei eu, porventura, distinguir uma coisa tão básica como a diferença entre assuntos sérios e conversas de café? Não meus amigos, eu sei do que estou a falar.
Eu lido com este tipo de pessoas todos os dias.
Eles eram os tónis da vossa escola. Eles são agora os melhores alunos da faculdade de direito. Eles provavelmente nunca estiveram com uma rapariga. Eles provavelmente só “o” fizeram com livros. Eles são… o futuro de Portugal.
Homens dos vinte aos setenta anos que patinam na sua própria poça de baba
sempre que uma gaja passa por eles? Um sitio onde não se pode passar pelos corredores sequer com as mangas arregaçadas sob pena de ver debruçarem-se sobre os nosso pobres triceps os olhares mais ávidos de quem provavelmente nunca mandou uma na vida? Benvindos à faculdade de direito, onde se constrói o futuro politico de Portugal. Onde o marrão da vossa turma de liceu é agora uma estrela porque tem boas notas e se dá com os professores todos. E toda a gente quer ser amiga dele.
Sim, estes senhores, que seguem o mundo tal como o vêem nos manuais e que não têm a minima noção do que se passa no mundo real, vão dirigir o nosso país. Eles são os homenzinhos de preto que puxam os cordelinhos das nossas pequeninas e insignificantes vidas.
O gajo que se sentava na primeira fila e que cheirava mal, de fato de treino bordeaux manchado de Bolicao e com óculos de fundo de garrafa (e, provavelmente, borbulhas), esse gajo é “O Estado”. [...]'

Teresa

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29 agosto 2007

'Museu Berardo' traz o playboy de subúrbio aos museus.


Como sempre, deixei a poeira assentar [neste caso não demasiado, porque não me admira que a poeira voe em breve] e visitei o 'Museu Berardo', que aloja obras do homem sobre o qual mais se fala em Portugal, seja pelo BCP, pelo Benfica, pelo Museu, ou simplesmente porque não pára de aparecer na imprensa, em estilo readymade.

O CCB, aka 'Centro Cultural Berardo', para alguns 'centro comercial', trouxe uma novo cenário para os museus em Portugal.

Acabou a ideia de sossego associada a um vigilante de museu: agora, o CCB está em estado de sítio -- os visitantes não ligam nenhuma às linhas que no chão indicam a distância a ter das obras, urram de um lado para o outro das galerias, ouvem-se crianças a chorar, ou a correr, ou a mexer nas obras. Ou a arrastar-se pelo chão, o que vendo bem, até pode ajudar a quem iria limpar o pó. Só faltavam pitbulls e um chuning.

Mas o público do CCB não ficou maluco. O que acontece é que a fauna que por lá se vê, para citar uma amiga minha, não é nada do que se vê normalmente num museu. Quem ia, deixou de ir. Quem vai, estava normalmente num qualquer subúrbio.

Berardo deve pois estar satisfeito: o objectivo de trazer o 'povo' ao museu fica cumprido, pelo menos até ao fim do ano, porque a entrada é grátis.

O que achei adorável é que, como disse um amigo meu, 'esta gante nem olha para os quadros, tão preocupada está em tirar uma boa foto'. Outra amiga dizia que havia pessoas a cheirar a vinho [coisa que não confirmei, embora visse narizes encarnados em velhinhos de boné não muito diferentes daqueles que vieram de Cabeceiras de Basto aplaudir António Costa no Altis, após as eleições para a CML, sem saberem bem do que -- e de quem -- se tratava].

O museu deixou de ser um local de contemplação de arte para ser um local de turismo, onde se tira uma foto para por no screensaver do PC umas semanas, ou num álbum, ou num folder perdido no computador, ou colado ao frigorífico.

A experiència não é ver arte: é tirar umas fotos. E depois olhar para elas.

Mas o que é mesmo impressionante neste Museu Berardo é, e ainda no domínio da sociologia, que as fotos não são das obras em si, mas das pessoas que visitam o museu. Fotos dos filhos desdentados a dizer adeus ao lado de umas latas de Campbell soup, ou do pai trintão e de barba por fazer ao lado de um David Hockney.

Ou até de toda a família [chamaram-me a atenção quando ouvi o bip-bip-bip do temporizador da máquina], colocando um a camera e correndo todos para o pé de um quadro qualquer a dizer adeus ou a fazer caretas, ou a fingir que seguram um quadro, ou que são eles próprios parte do quadro.

Essencialmente, os portugueses deram função ao Museu Berardo: substituir a extinta Feira Popular.

Não digo que não; pelo menos quando passar ao lado o edifício não me faz tanta impressão. Mas também eu não ia ao Campo Grande...

O que gostei? O logotipo da Fundação Berardo, embora demasiado semelhante aos símbolos da Bentley e da Breitling.

E 3 quadros:

Jan ARP [c.1926], sem título

Pablo PICASSO [1947]Femme au Fauteil

Raymond HAINS [1970] Seita


Assinalei outras 23 obras como de boa qualidade, mas estas 3 eram as que correspondiam ao meu gosto estético.

Na próxima semana publico as conclusões que tirei da leitura dos estatutos da Fundação, que acabam por ser 'o' documento para avaliar o 'negócio' entre Berardo e o Governo, que tanto se discutiu há uns tempos, mas creio que sem grande substância e nenhumas conclusões úteis. Abaixo seguem os devidos links.


Colecção Berardo

Berardo Collections

Museu Colecção Berardo

Decreto-Lei que constitui a Fundação Berardo

Nota Informativa da Presidência da República a propósito do decreto-lei de criação da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo

PS - porque é que o PIN oferecido, em forma de coração, diz 'Art for Life' e não algo em português?

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28 agosto 2007

Um dos maiores empresários da noite portuense, proprietário da discoteca Chic, foi ontem abatido com oito tiros à porta daquele estabelecimento'



É a notícia que vem no DN de hoje que me deixa a pensar sobre a importância da forma como se diz as coisas, independntemente do seu conteúdo.

neste caso, podia-se ter dito 'morto', 'assassinado', 'vitimado', etc., etc..

Mas, 'abatido', género 'shot down', 'shot dead'.

Género animal.

Sobretudo sendo um 'empresário da noite', de uma discoteca chamada 'Chic' e do'norte', mais precisamente do 'Porto'.

Presumo que alguns leitores tenham sorrido ou rido, e que a família e amigos do falecido não tenham gostado nada.

Ia a dizer 'é a vida!'. Mas seria de mau gosto...

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24 agosto 2007

Os mercados.



'Estas são as divisões da sociedade realmente fundamentais na Era da Informação: primeiro, o fragmentar interno da força de trabalho entre produtores informacionais e mão-de-obra-genérica substituível. Segundo, a exclusão social de um segmento significativo da sociedade formado por indivíduos descartados cujo valor como trabalhadores/consumidores já foi usado e cuja importância como pessoa é ignorada. E terceiro a separação entre a lógica de mercado das redes globais de fluxos de capital e a experiência humana dos trabalhadores'
p.471



'O terceiro nível do processo de apropriação de lucros pelo capital é história antiga, tanto quanto é característica fundamental do novo capitalismo informacional. Diz respeito à natureza dos mercados financeiros globais. Nestes mercados, os lucros de todas as fontes acabam por convergir na procura de maiores ganhos. Na verdade, as margens de lucro no mercado accionista, monetário, de títulos, futuros, opções e derivados, isto é, nos mercados financeiros em geral, são, em média, muito maiores que na maior parte dos investimentos directos, exceptuando de alguns casos de especulação.



Esta vantagem não decorre da natureza do capital financeiro, a forma mais antiga de capital na história, mas das condições tecnológicas em que o capital opera no informacionalismo, nomeadamente, este último invalida o conceito de espaço e tempo mediante meios electrónicos.



A sua capacidade tecnológica e informacional de procurar em todo o planeta oportunidades de investimento e de mudar de uma escolha para outra em questão de segundos, faz com que o capital esteja em movimento constante, fundindo capital de todas as origens, como em investimentos em fundos mútuos.



Os recursos de programação e precisão dos modelos de gestão financeira possibilitam inúmeros cenários alternativos, vendendo 'património irreal' como direitos de propriedade imaterial. Jogando-se segundo as regras, não existe nada de diabólico neste casino global.



Afinal, se uma gestão cuidadosa e a tecnologia apropriada evitam crises de mercado, as perdas de algumas fracções de capital representam os ganhos de outras, de forma que, a longo prazo, o mercado faz um balanço e mantém um equilíbio dinâmico.



Contudo, em virtude do diferencial entre o montante de lucros obtidos com a produção de bens e serviços e o valor que se pode conseguir com investimentos financeiros, os capitais individuais de todos esses tipos dependem, sem dúvida, do destino dos seus investimentos nos mercados financeiros globais, visto que o capital nunca pode ficar parado.



Deste modo, os mercados financeiros globais e as suas redes de gestão são o verdadeiro capitalista colectivo, a mãe de todas as acumulações [...] mas estes movimentos não seguem uma lógica de mercado. Este é torcido, manipulado e transformado por uma combinação de de manobras estratégicas accionadas por computadores, psicologia de multidões multiculturais e turbulências inesperadas devido a graus cada vez maiores de complexidade na interacção entre os fluxos de capital a uma escala global.

CASTELLS, Manuel [2oo3] A Era da Informção: Economia, Sociedade e Cultura, vol. III [O Fim do Milénio], Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp.466-467



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