09 maio 2008

'Livres para casar'


é o título que acompanha a imagem de capa do DN de hoje.

E refere-se não a uma alteração relevante em qualquer lei, mas ao divórcio de João Pinto, jogador de futebol.

Além desta há outra grande imagem, no topo, quase a tapar o título 'Diário de Notícias': um grande apito dourado, e fotos de presidentes de clubes de futebol.

Este tipo de critério de selecção jornalística, num jornal histórico e generalista [não o Record, a Bola ou o Jogo], revela bem a perda de qualidades tanto dos seus editores como dos leitores.

Aliado ao suplemento de televisão do DN, pleno de catraias meio despidas e 'notícias' cor de rosa, típicas das chamadas revistas de cabeleireiro...

Há quem lhe chame, pomposa e falsamente, democratização.

Em boa verdade é degradação.

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14 outubro 2007

Expresso


Esta semana [13.10.2oo7] o Expresso está de parabéns por alguns dos conteúdos. Destacam-se:

- uma reportagem sobre o risco de terramoto [parece que não aprendemos nada com a nossa própria história, com um terramoto que nos lançou para a cauda não só da Europa, como do mundo]: 'enquanto nós perdemos ânimo político para prevenir o sismo, as placas tectónicas vão acumulando mais energia': pp.25-25;

- uma reportagem sobre uma consequência imediata e muito grave da actual crise económica e política em Portugal: a subida dos preços dos alimentos básicos [ver LorenzettiCome], a descida do IVA apenas em alguns produtos manhosos de fastfood e portanto o encorajamento ao seu consumo, e a existência de 50% de portugueses adultos com excesso de peso: p.26;

- um artigo sobre a incapacidade do Governo PS para combater o desemprego: p.5;

- uma reportagem sobre o OE2oo8 e em particular as verbas para cada ministério, que provavelmente não irão chegar [a Cultura não recebe quase fundos [o pior de todos, com 245.5 milhões, sendo que as Finanças e Administração Pública recebem a maior fatia do bolo, 18.406 milhões, seguidos pela saúde apenas com 8645 milhões]: p.4;

- uma coluna de Miguel Sousa Tavares questionando qual a razão das queixas de Catalina Pestana quanto a actuais abusos na Casa Pia, sendo ela a principal responsável pela instituição, como Provedora, o que obviamente a torna, então, culpada: p.7;

- a subida louca de processos contra sindicalistas na vigência do actual governo: p.8;

- um artigo sobre as 'vaias, apupos e insultos' ao PM José Sócrates na Covilhã, sua terra natal, sob o título 'A democracia é uma festa' e o comentário do PM 'uns protestam e outros aplaudem': p.8;

- uma crítica ao PM José Sócrates, que acusa os seus críticos de serem comunistas [como já faziam os ditadores mais clássicos do século XX]: p.18;

- o artigo sobre Angola e o seu traço imperialista sob Eduardo dos Santos: p.34;

- a simpática referência ao leilão da Leiria e Nascimento, onde Vieira da Silva bateu os records de quadros leiloados em POrtugal [mesmo Malhoa?!]: p.48.

E isto só o 'primeiro caderno'.

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02 outubro 2007

A morte do pai do Chefe de Estado.



O pai do Presidente da República Cavaco Silva chamava-se Teodoro. Descobri porque se escreveu sobre isso no DN e duas vezes, e na TSF, entre outros órgãos de comunicação social.

Não percebo que a morte do senhor seja 'notícia' dado que aquilo que torna o senhor Teodoro Silva 'famoso' é o seu filho, actual 'Chefe de Estado'.

Sobretudo numa democracia, onde é suposto não haver cultos de personalidade, neste caso levada ao extremo [pelo menos do ponto de vista genealógico...].

Claramente os jornalistas não têm mais que fazer.

E os leitores / ouvintes / telespectadores nenhuma exigência quanto à qualidade dos conteúdos.

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23 abril 2007

Jornalismo de vão de escada


ou de atacado para vender e cobrar é o que caracteriza títulos que exploram a vida íntima e em nada interessam ou deveriam interessar ao público, e que nenhum jornal deveria ter o bom senso de publicar.

Num momento em que se discute se a imprensa portuguesa sabe ou não o que é notícia e o que não é notícia [sobretudo à luz dos toques disparatados do Governo PS sobre a rádio Renascença], isto é exactamente aquilo que a imprensa não deve fazer:


'Eusébio arrisca AVC caso decida não ser operado'


era uma notícia de capa do DN de hoje, jornal 'de referência' em Portugal há mais de 100 anos.

É pena ser de referência [e não de deferência] hoje neste blog por tão más razões.

Com tantas coisas relevantes por aí -- algumas no interior do próprio jornal, mas sem honras de capa -- é infeliz para a imprensa portuguesa e para os direitos à privacidade e intimidade da vida privada [e eventualmente para o sigilo médico] que surja este tipo de 'notícia'.

A censura à imprensa é um mal, mas o abuso da liberdade de imprensa é igualmente 'maçador'. sobretudo na edição de 23 de Abril de 2007, tão perto da data histórica do 'vinte e cinco do quatro', como diz um conhecido meu.

Mesmo que o autor do texto no DN ou quem ordenou ou autorizou a sua publicação tivessem a ingenuidade de colocar um texto de incentivo a Eusébio para melhorar a sua saúde, tal podia ser feito através de carta ao dito, ou de resto com uma discrição bem diversa que a de uma notícia de capa num dos jornais diários mais vendidos do país.

Haverá algo mais horroroso que a violação da privacidade? Este caso é um bom teste à utilidade da nova entidade reguladora da comunicação social.

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07 março 2007

PCP e a tese da cassete


Todos sabemos que o PCP reúne históricos que levaram com o cassetete policial e mais jovens que levam com o cassetete do 'political prejudice', acusados de viver em torno de cassetes.

Não sei se a teoria da cassete é verdadeira ou não [ainda tal teoria seja algo favorável ao chamado relativismo dominante, combatido precisamente pelos neo-liberais], mas parece-me especialmente importante que se seja honesto e rigoroso naquilo que se diz.

Sobretudo quando se é jornalista, ao que acresce então -- a menos que se escreva a título de comentário ou pessoal -- o dever de imparcialidade.

No DN de hoje li uma 'notícia' com o título 'PCP diz que teses de Cunhal com 60 anos estão actuais'.

Fiquei curioso. Dada a 'teoria da cassete', quis perceber qual o conteúdo da cassete.

No entanto, refere o autor do artigo, citando Jerónimo de Sousa, actual líder do PCP, que 'Nos textos do camarada Álvaro Cunhal agora publicados, todos escritos há mais de seis décadas relevam questões que continuam a ter uma actualidade incontornavel e são uma referência para os comunistas do nosso tempo'.

Li a notícia mais do que uma vez, mas o erro persistia.

O que o jornalista não percebeu, ou não quis perceber [e o mesmo se aplica ao revisor e ao editor que admitiu a publicação], é que não havia ali ideias nenhumas, mas factos.

Ao dizer 'relevam questões que continuam a ter uma actualidade incontornavel ' é evidente que a referência é aos problemas, e não às soluções.

E se as soluções são políticas -- à esquerda, direita, centro ou outra coisa qualquer -- os problemas são de facto.

Portanto não se falava certamente das 'teses de Cunhal', mas apenas de 'questões que continuam a ter uma actualidade incontornavel '.

Uma amiga minha, que não é, de todo, do PCP, e nem sequer de esquerda ou de direita suave, dizia-me ao almoço que Jerónimo era uma espécie de Lula português. Lula era torneiro mecânico e Jerónimo de Sousa, creio, era operário fabril.

É curioso que um ex-operário fabril seja mais rigoroso que um jornalista no activo.

Às vezes, até que prefiro quando os jornalistas cometem erros ortográficos. Esses ao menos beneficiam da desculpa do mistype e não de raciocínio obtuso ou parcial.

Que no caso, nem ajuda os anticomunistas.

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15 fevereiro 2006

Expresso da Praxe, Praxe no Expresso


Já falámos aqui do delicioso julgamento de algumas pessoas que julgam que a praxe é uma coisa maravilhosa, que não humilha ninguém, é inteligente e divertida, e na qual todos gostam de participar. Uma espécie de mocidade Portuguesa onde, desta vez, todos se podem sujar e fazer ordinarices.

Desta vez -- e bem, até porque o assunto parece ter morrido -- é o jornal Expresso, na sua revista, a abordar o tema.

Conta a história da famosa estudante que 'foi barrada com bosta de porco, mergulhada de cabeça e com os pés amarrados num balde de excrementos de vaca até sufocar e desmaiar. Durante uma semana esteve às ordens de uns veteranos [...] Andou sempre com um penico carregado de bosta de vaca na mão - o seu cartão de identidade obrigatório como caloira da Escola Agrária de Santarém' [Única, Expresso, 4.2.2006, p.21].

Ficámos a saber da existência de um website que divulgamos: Antípodas, de uma associação anti-praxe. Desde logo pelas fotografias publicadas, da qual esta é particularmente expressiva...

Preferíamos ter aqui uma das nossas habituais imagens de um quadro de Vermeer ou até uma foto de Cindy Sherman, ou ainda um belo exemplar da arquitectura contemporânea.

Desta vez é uma foto do nosso país contemporâneo. Não podemos esquecê-lo, até porque vivemos nele. Resta-nos mudá-lo...

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14 fevereiro 2006

Questão 'cart00n Maomé'


Espera-se que quando este post for publicado já tenha acalmado a histeria dos cartoons dinamarqueses que ilustram Maomé.

Este caso parece insólito, mas não é.

Num jornal de clara orientação política num país que não é conhecido pelos extremismos [e que na sociedade internacional é, mesmo, digamos, um Estado discreto], foi publicado um cartoon que viola as regras religiosas -- e de Estado, no caso -- da cultura muçulmana.

Percebe-se que haja uma reacção muçulmana. Afinal um católico também não acharia muita piada a um cartoon islâmico retratando os apóstolos numa orgia, por exemplo.

O que é discutível é:

1. Tomar como agressor não o criador e o editor do cartoon, mas o país onde tal sucedeu;

2. Violar as regras de direito internacional [e de 'boa educação'...] incendiando uma missão diplomática, entre outros eventos menos simpáticos por todo o mundo.

No primeiro caso, isto apenas revela o fosso cultural, político e religioso entre o mundo muçulmano e o mundo dito Ocidental. Que vai ao ponto de considerar que todo um Estado [lei-se a Dinamarca] é responsável por um cartoon de um jornal que nem sequer tem distribuição mundial.

No segundo caso, o recurso à violência, causando danos materiais e humanos, e criando instabilidade e uma crise diplomática.

Isto porque o cartoon não criou uma crise diplomática.

Tal apenas sucederia se o cartoon tivesse sido publicado num jornal oficial, ou de alguma forma com um intento político internacional, o que não parece que tenha sido o caso.

Percebe-se bem a revolta dos crentes em Maomé. E nem se entende que deva contra alegar-se com a liberdade de imprensa. Antes dessa estão os direitos humanos e a religião é um deles.

O que não se percebe são os meios para canalizar essa revolta.

Entendam-se, meus Senhores.


DELACROIX [1849-50], óleo s/tela, Art Institute of Chicago

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