12 setembro 2007

Chineses na 'Baixa' de Lisboa.


Hoje ao almoço discutiu-se, entre outras coisas, a chinesice de tirar os chineses da baixa de Lisboa.

Sinceramente não vou à baixa. Adorava, mas não vou. É um pouco como África: tenho medo e calor.

A Baixa -- não confundir com o Chiado, bem mais elegante, embora ainda pouco sofisticado [e foi daí que veio a foto] -- resume-se a lojas decadentes, ruas estreitas e sujas, com carros e sem espaço para pessoas -- e também sem espaço para parar os carros.

Estou-me nas tintas para a ideia de tirar as lojas chinesas da Baixa.
Se não fosse pelos acordos da OMC e a Constituição Portuguesa, bem como as boas relações diplomáticas com a China, era e é, sobretudo, porque as restantes não são muito piores.

Tem de agir-se na Baixa.

Mas essa acção não se resume -- nem pode incluir -- a retirada de lojas chinesas da Baixa. Sobretudo para as colocar numa duvidosa 'Chinatown', que seria ainda pior, arriscando-nos a ter um ghetto povoado ou pelo menos dominado por máfias asiáticas sinistras e perigosas, se não para quem lá fosse, para quem lá vivesse ou trabalhasse.

O que é preciso na Baixa -- como de resto no resto de Lisboa e no resto do país -- é limpeza e qualidade.

Limpar ruas e paredes, pintá-las, ter espaço para carros e pessoas, ter transportes públicos decentes, ter segurança nas ruas, e ter lojas limpas, com boa apresentação, produtos de qualidade, atendimento profissional.

Fim às lojas sujas, mal-cheirosas, mal amanhadas, com tudo amontoado, empregados antipáticos e ignorantes e que muitas vezes nem falam português e muito raramente inglês, fim aos preçários feitos à mão em papel de rascunho com canetas de feltro, colocados na rua mesmo para se tropeçar ou ser atropelado ao usar a estrada, fim às montras de mau gosto, à falta de ar condicionado, aos produtos de plástico ranhoso ou que não interessam para nada, às lojas sem multibanco ou que não aceitam cheques, ou que têm sempre tudo esgotado, ou que fecham aos fins de semana ou nas férias, ou à tarde, ou ao almoço, fim às lojas que não fazem embrulhos de presente ou os fazem mal, e aos empregados que nos atendem como se fosse uma deferência ou favor da parte deles...

Parece que só se consegue algo de jeito indo à Carolina Herrera, à Zegna ou à Vuitton na Avenida da Liberdade [e mesmo assim...].

É isto que é preciso mudar, e isto abrange tanto lojas chinesas, como portuguesas, como indianas. Todas. Em Lisboa e fora dela. E nem vamos falar de cafés, bares ou restaurantes... para não perder a sede ou o apetite.

Não pode ser.

Se conseguirmos isto, podemos considerar-nos civilizados. Para já, vou aos saldos de Londres. É que nem sai mais caro...

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29 agosto 2007

'Museu Berardo' traz o playboy de subúrbio aos museus.


Como sempre, deixei a poeira assentar [neste caso não demasiado, porque não me admira que a poeira voe em breve] e visitei o 'Museu Berardo', que aloja obras do homem sobre o qual mais se fala em Portugal, seja pelo BCP, pelo Benfica, pelo Museu, ou simplesmente porque não pára de aparecer na imprensa, em estilo readymade.

O CCB, aka 'Centro Cultural Berardo', para alguns 'centro comercial', trouxe uma novo cenário para os museus em Portugal.

Acabou a ideia de sossego associada a um vigilante de museu: agora, o CCB está em estado de sítio -- os visitantes não ligam nenhuma às linhas que no chão indicam a distância a ter das obras, urram de um lado para o outro das galerias, ouvem-se crianças a chorar, ou a correr, ou a mexer nas obras. Ou a arrastar-se pelo chão, o que vendo bem, até pode ajudar a quem iria limpar o pó. Só faltavam pitbulls e um chuning.

Mas o público do CCB não ficou maluco. O que acontece é que a fauna que por lá se vê, para citar uma amiga minha, não é nada do que se vê normalmente num museu. Quem ia, deixou de ir. Quem vai, estava normalmente num qualquer subúrbio.

Berardo deve pois estar satisfeito: o objectivo de trazer o 'povo' ao museu fica cumprido, pelo menos até ao fim do ano, porque a entrada é grátis.

O que achei adorável é que, como disse um amigo meu, 'esta gante nem olha para os quadros, tão preocupada está em tirar uma boa foto'. Outra amiga dizia que havia pessoas a cheirar a vinho [coisa que não confirmei, embora visse narizes encarnados em velhinhos de boné não muito diferentes daqueles que vieram de Cabeceiras de Basto aplaudir António Costa no Altis, após as eleições para a CML, sem saberem bem do que -- e de quem -- se tratava].

O museu deixou de ser um local de contemplação de arte para ser um local de turismo, onde se tira uma foto para por no screensaver do PC umas semanas, ou num álbum, ou num folder perdido no computador, ou colado ao frigorífico.

A experiència não é ver arte: é tirar umas fotos. E depois olhar para elas.

Mas o que é mesmo impressionante neste Museu Berardo é, e ainda no domínio da sociologia, que as fotos não são das obras em si, mas das pessoas que visitam o museu. Fotos dos filhos desdentados a dizer adeus ao lado de umas latas de Campbell soup, ou do pai trintão e de barba por fazer ao lado de um David Hockney.

Ou até de toda a família [chamaram-me a atenção quando ouvi o bip-bip-bip do temporizador da máquina], colocando um a camera e correndo todos para o pé de um quadro qualquer a dizer adeus ou a fazer caretas, ou a fingir que seguram um quadro, ou que são eles próprios parte do quadro.

Essencialmente, os portugueses deram função ao Museu Berardo: substituir a extinta Feira Popular.

Não digo que não; pelo menos quando passar ao lado o edifício não me faz tanta impressão. Mas também eu não ia ao Campo Grande...

O que gostei? O logotipo da Fundação Berardo, embora demasiado semelhante aos símbolos da Bentley e da Breitling.

E 3 quadros:

Jan ARP [c.1926], sem título

Pablo PICASSO [1947]Femme au Fauteil

Raymond HAINS [1970] Seita


Assinalei outras 23 obras como de boa qualidade, mas estas 3 eram as que correspondiam ao meu gosto estético.

Na próxima semana publico as conclusões que tirei da leitura dos estatutos da Fundação, que acabam por ser 'o' documento para avaliar o 'negócio' entre Berardo e o Governo, que tanto se discutiu há uns tempos, mas creio que sem grande substância e nenhumas conclusões úteis. Abaixo seguem os devidos links.


Colecção Berardo

Berardo Collections

Museu Colecção Berardo

Decreto-Lei que constitui a Fundação Berardo

Nota Informativa da Presidência da República a propósito do decreto-lei de criação da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo

PS - porque é que o PIN oferecido, em forma de coração, diz 'Art for Life' e não algo em português?

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01 agosto 2007

Câmaras de Ruído.


Foi hoje publicada a alteração à Lei do Ruído, uma daquelas que ninguém fala e que têm uma importância vital numa sociedade civilizada, dadas as suas implicações para a saúde e o conforto dos cidadãos.

Entre outras alterações, refere o governo no preâmbulo do DL 278/2oo7 que 'da actual redacção do artigo 15.º resulta que todo o exercício de actividades ruidosas temporárias carece de ser autorizado mediante a emissão de licença especial de ruído, quando, em rigor, o que se pretende efectivamente condicionar é o exercício de actividades ruidosas temporárias referidas no artigo 14.º, cuja incomodidade não é admissível. Assim, altera -se o artigo 15.º do RGR no sentido de clarificar que apenas o exercício de actividades ruidosas temporárias previsto no artigo 14.º do RGR, por ser excepcional, carece de ser autorizado mediante a emissão de licença especial de ruído'.

De acordo com o diploma, essa autorização cabe às câmaras municipais:

Artigo 15.º
[…]
1 — O exercício de actividades ruidosas temporárias
previsto no artigo anterior pode ser autorizado,
em casos excepcionais e devidamente justificados,
mediante emissão de licença especial de ruído pelo
respectivo município
[...].

Não deixa de ser irónico que se atribua aos municípios a competência para estas licenças especiais, que podem abranger, por exemplo, obras à noite. Que acabam por ser especialmente apelativas em períodos eleitorais, quando se quer acabar obra rápido para inaugurar antes do dia de reflexão...



Num país onde há uma súbita 'tara económica' e onde temos todos de ser 'imparciais e independentes' e de ter comissões para isto e aquilo e reguladores independentes, não se percebe como é que numa matéria tão relevante como o ruído se confere a competência às câmaras municipais.



Isto porque as câmaras são elas próprias construtores ou concedentes e abrem empreitadas.

As câmaras tornam-se, assim, um ponto de conflito de interesses, que quem quer construir rápido e que quem concede as licenças de ruído que permitem ruído [e portanto construção] a horas e níveis de ruído normalmente proibidos.

Há vários casos conhecidos, sobretudo de infraestruturas municipais, e já me aconteceu até ligar à polícia a queixar-me de ruído de obras e ser-me dito pela polícia que a obra é da câmara e tem licença para ruído nocturno [leia-se, no caso concreto, depois da uma da manhã].

Como em todas as questões de cidadania e qualidade de vida, os ingleses são neste campo um exemplo e já se ultrapassou esta questão do ruído de obras para discutir o ruído doméstico, incluindo 'até' portas que fazem ruído a fechar.



Organizações como a Encams, que leva a cabo várias campanhas de esclarecimento sobre questões fundamentais para a qualidade de vida, as verdadeiras questões que em Portugal, como na maioria dos países sub-desenvolvidos, não se leva a sério, são heroínas. Além do ruído, as campanhas da Encam lixo no chão, dejectos de animais na rua, colagem de anúncios e cartazes, lixo de comida e plástico, veículos abandonados, graffittis, pastilhas elásticas coladas por todo o lado, beatas no chão e a sujar paredes, etc.. Coisas que em Portugal são vistas como 'mariquices' por muitos dos indígenas, como chama Vasco Pulido Valente a todos nós, e que o Governo e maioria dos partidos, não vendo aí interesse eleitoral nem dívidas a quem lhe paga as campanhas, nada faz. Os comportamentos 'anti-sociais' são vistos em Portugal como banais. Seja os citados seja outros, como o bullying, que tem inclusive dignidade penal. Aliás, nem se fala de comportamentos anti-sociais, porque o pensamento é menos sofisticado.

Há uma diferença muito clara entre flexibilidade do legislador e inutilidade do legislador.

Só falta conferir aos construtores civis a competência para a emissão de licenças de construção.

imagem: uma das ilustrações desenhadas pelo atelier Raw Nerve para campanhas municipais anti-ruído. A municipalidade em causa [Lewisham, no sudeste de Londres, a segunda maior de Londres em área, com umas 25o mil pessoas, parte dos cerca de 7 milhões de habitantes de Londres, pelos censos de 2oo1] recebe 8ooo queixas anuais relativas a ruído, maus cheiros, fumos, etc. e tem poder para intervir nos locais [e.g. apreensão de equipamentos usados para produção de ruído, como aparelhagens de som].

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10 maio 2007

Lisboa


Com o dramatismo do costume, o advogado e membro do 'Bloco de Esquerda' José Sá Fernandes dizia 'a Câmara caiu'. Era o Jornal 2, na RTP2.

As notícias sucediam-se. Todos os vereadores pediram a demissão, tirando dois do PSD que têm o mandato suspenso por estarem envolvidos em processos judiciais, e em circunstâncias pouco agradáveis. E o Presidente Carmona [não o Marechal, mas o substituto de Santana Lopes] parece ir no mesmo caminho. Esperemos que o seu desaparecimento da cena política autárquica não seja também um desaparecimento da vida judicial...

A Câmara de Lisboa tem agora três mulheres possíveis, o que não deixa de ser curioso num pais ainda machista: Ferreira Leite, Nogueira Pinto e Roseta.

E claro, um Santana Lopes que reaparece como um strobe do Stones.

E quem sabe, Carrilho volta a aparecer com a modelo-mulher [não confundir com mulher-modelo] e com o filho, que protagonizou anúncios de campanha, como se recordarão...

Mais uma vez, vamos ter eleições em Lisboa. E mais uma vez irão votar poucas das pessoas que de facto vivem em Lisboa [porque a maioria dos que vivem na cidade, trabalham nela, apesar de não residirem nela]. Falámos disso anteriormente.

Para quando o direito de voto alargado a todos os que trabalham na cidade, algo perfeitamente justificável, pois trata-se da principal cidade do país, onde quem vive na cidade não tem direito de voto, pelo simples facto de não dormir nela?

Isso parece-me bem mais importante do que discutir o carro de Santana Lopes, ou os episódios de campanha em que Carrilho não aperta a mão a Carmona e Carmona lhe chama 'grande ordinário'.

Porque o resto são politiquices.

E na verdade Lisboa precisa de votos úteis de cidadãos úteis. Não só os que dormem na cidade, mas os que nela trabalham todo o dia ou noite e portanto a vivem.

E de votos e candidatos que tragam boa gestão financeira mas sobretudo sensibilidade urbanística. renovação urbana, boa arquitectura, ocupação de edifícios, actividade cultural, redução do crime.

É assim tão difícil? Não parece. Pelo menos se não se perdessem em discussões [discussõezinhas?] camarárias irrelevantes entre partidos ou dentro de partidos.

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