28 fevereiro 2008

Hoje


'A simples verdade é que fui a Inglaterra espairecer' [p.v]

'Ha riqueza exuberante, e que tende a enriquecer cada vez mais os ricos, pondo-os frente a frente com plebes proletarias. É perigoso.'
[p.9]

'Só as grèves são meio efficaz: a acção do Parlamento é nulla e irrisoria' [p.13]

'Vê-se o esforço da gente rica, imaginando que com dinheiro se obtem tudo, e que, à custa de milhões, querem também ser artistas. Bem lhes basta o que são' [p.26]


'vão, cada qual atraz da sua chimera, e todos collectivamente, impelidos pela chimera colossal do made money. é decerto isso que os imbelicisa [...] como sombra de tanta grandeza, nunca em parte alguma vi brutalidade mais bruta, nem estupidez mais estupida'
[p.31]

'A máxima do time is money é um erro completo. Porque ninguem desperdiça mais o tempo por falta de methodo. Gastam-no inutilmente, nao na ociosidade, pois se agitam sem cessar; mas gastam-no sem saberem utilisal-o intelligentemente' [p.45]

'o segredo da fortuna colonial britannica está nos dotes (ou na ausenca de dotes) dos homens. Destituidos de idéas, systemas e preconceitos, [...] levados unica e energicamente pelo instincto de ganhar, moldam-se as circunstancias' [p.111]

'n'uma sociedade onde a ostentacao e o luxo acendem a cubiça dos que teem menos, a miseria e insupportavel' [p.131]

'o saber nao constitue um fim, é apenas o meio de ganhar dinheiro [...] é a bagagem com que partem, não é uma educação que levem' [p.133]

'esta poderosa sociedade capitalista tem os pés de barro, esta montanha colossal de riqueza assenta sobre contrafortes de miseria inconsistente e esboroadiça' [p.203]

OLIVEIRA MARTINS [1893] A Inglaterra de Hoje, Lisboa: A.M. Pereira

Marcadores: , , , , , , ,

18 setembro 2007

'Crise' nos mercados financeiros: a visão britânica


95/07

17 September 2007
Statement by the Chancellor of the Exchequer on financial markets

[...]

this is an international problem affecting countries throughout the world, including the United States and here in the United Kingdom

Many banks and other financial institutions all over the world are experiencing problems.

Here in Britain, we meet these challenges against a background of a strong economy, one that has grown for over sixty consecutive quarters.

In addition, we have historically low inflation, which has, in turn, seen low interest and mortgage rates.

Our economic, monetary, fiscal and regulatory framework and tripartite system for the financial markets has underpinned the stability of our economy, and has enabled us to deal with previous international financial turbulence.

And on an international level the world economy is forecast to grow at five per cent this year.

Secretary Paulson and I have discussed measures we believe are necessary to improve the regulation of international markets, to encourage greater transparency, and to strengthen cross-border cooperation and communication. We look forward to discussing all of these issues at the IMF meetings in Washington next month.



In relation to Britain and Northern Rock, the Financial Services Authority has repeated again over the weekend and today that Northern Rock is solvent and with a sound long term loan book, but has had short term liquidity difficulties. The support I authorised the Bank of England to offer Northern Rock last week is designed to overcome these short-term difficulties, and to enable it to do its business in the normal way.

As I have said on many occasions over the past few days, people are able to get their money out if that is what they want to do.



I want to put the matter beyond doubt. In the current market circumstances, and because of the importance I place on maintaining a stable banking system and public confidence in it, I can announce today that following discussions with the Governor and the Chairman of the FSA, should it be necessary, we, with the Bank of England, would put in place arrangements that would guarantee all the existing deposits in Northern Rock during the current instability in the financial markets.


This means that people can continue to take their money out of Northern Rock. But if they choose to leave their money in Northern Rock, it will be guaranteed safe and secure.

As I have discussed with Secretary Paulson, we will continue to work here and internationally to do everything we can to maintain a stable and strong economy'.



A questão que se coloca é a seguinte: se o Northern Rock for o primeiro de vários, o banco central inglês paga tudo a todos? Isto porque o 'problema de liquidez' do Northern Rock tinha sido apresentado inicialmente como banal e de importância menor... Mas se for tão vulgar, como pode o governo inglês assegurar todos os depósitos? Não pode. Mas esta questão, que aqui se coloca, não deve passar na cabeça da maioria dos ingleses ou europeus. Se passasse, aí sim, teríamos uma bancarrota. Vamos ver se é uma simples flutuação, ou de o início de um ciclo de baixa, bem desagradável...


imagem: HM Treasury, Londres.

Marcadores: , , , , ,

08 setembro 2007

Goya em filme.



Falei dele aqui em 7 de Maio e republico, porque como vi em Londres nem me apercebi na altura que o filme não tinha saído em Portugal. Parece que volvidos 4 meses, os portugueses podem ver Goya's Ghosts, de Milos Forman.

Aqui está o que escrevi na altura, desta vez com o trailer:


'Já estamos a imaginar o efeito: vão aparecer uns livrinhos manhosos sobre Goya e provavelmente fazer-se alguns programas de TV.

Acontece sempre isto quando aparece um filme sobre um determinado artista.

Mas sempre é melhor do que manter as pessoas na [absoluta] ignorância, mesmo que isso implique [horror dos horrores] ver quadros de Goya escarrapachados em mouse pads.

Vi esta semana o 'Goya's Ghosts', de Milos Forman.

A expectativa não era imensa, pela leitura da crítica e pelo fraco elenco, mas era bastante por Forman, que embora tenha realizado poucos filmes ao longo dos últimos mais de 40 anos de carreira, realizou alguns bastante significativos, como Man on the Moon (1999), The People vs. Larry Flynt (1996), Valmont (1989) ou Amarillo Slim (2008).



Gostei de Goya. Tenho duas biografias de Goya em espera, uma delas ficou mais ou menos a meio, em Lisboa, e com o filme estou mesmo decidido a retomá-las: porque o grau de detalhe do filme significa uma de duas coisas -- ou foi fiel à história, ou foi absolutamente paranóico.

Em qualquer dos casos, e apesar de um cast fraco e de um argumento algo inopinado [sempre que a mãezinha vai conhecer a filha desaparecida começa tudo aos tiros e afastam-se novamente], Goya's Ghosts tresanda a uma deliciosa ironia, sarcasmo e denúncia de hipocrisia e oportunismo, demonstrando como o 'mundo é pequeno' e como se põem e tiram líderes, oscilando entre o trono e a sarjeta, num balanço verdadeiramente intemporal, que tanto faz sentido na Espanha acossada por Franceses, Ingleses e o Vaticano [o filme é de resto uma história instantânea de Espanha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX], como na américa latina dos anos 80 ou no leste europeu nos anos 90 ou no Iraque, Líbano e Afeganistão agora ou em África... all the time.

Goya's Ghosts é um retrato delicioso da opressão, do ego e da natureza humana em geral. E é isso que justifica o tempo usado a vê-lo [e o bilhete, que em Londres são 10 libras, uns belos 15 euros | '3 contos'].

Marcadores: , , , , , ,

07 setembro 2007

Um Churchill inesperado.


'the honour of bombing Berlin has fallen almost entirely to us' [p.5]



'If our dreams for Zionism are to end in the smoke of assasin's pistols, and oour labours for its future to produce only a new set of gangsters worthy of Nazi Germany, many like myself will have to reconsider the position we have maintained so consistently and so longThese are strong words, but we must wait for these words to be translated into deeds. We must wait to see that not only the leaders, but every man, woman and child of the Jewish community, does his or her best to bring this terrorism to a speedy end' [pp.251-252]



'Marshal Stalin, your Excellencies, ladies and gentlemen, friends and war comrades gathered here, I have now come to the end of a most strenuous and ta the same time most agreeable visit to Moscow...Most of all has it been a pleasure to me and an honour to have so many long intimate talks with my friend and war comrade Marshal Stalin... with him... will march the British Commonwealth of Nations and the mighty United States of America' [p.218]

'In particular, consideration has been given to the immediate reinforcement of the Soviet Navy either with Anglo-American or Italian resources' [p.27]



'I am glad of this opportunity to make know details of the very substantial contribution made by the United Kningdom in aid of our Soviet Allies' [p.76]

'A member interrupted to ask why, if the Government would not allow a Fascist Government in Italy, they would allow one in Spain? The Prime Minister continued: The reason is that Italy attacked us. We were at war with Italy. We struck Italy down. A very clear line of distinction can be drawn between nations ho go to war with us, and nations who leave us alone... The iron from Bilbao and the North of Spain is of great value to this country both in war and peace' [pp.90-91]



'We have signed a 20-year treaty with our Ally, the Soviet Union, and this Treaty is the foundation of our policy' [p.95]

etc. etc.


Charles EADE, org. [1944] The Dawn of Liberation, War speeches by the Rt. Hon. Winston S. Churchill C.H., M.P., London: Cassell and Company Ltd.

Marcadores: , , , , , , ,

20 agosto 2007

Iraque: les uns et les autres.


Li hoje no Público que 'o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, defendeu hoje, em Bagdad, que devem ser os iraquianos a encontrar uma solução para a violência no Iraque'.

Podendo essa ser uma realidade simples e aceitável, deixa de ser tão simples aceitá-la tendo em conta que não se deixou os iraquianos, desde o início, tratar sozinhos dos seus assuntos internos.

O Iraque, antiga Mesopotâmia, conhecida como berço da civilização, nunca esteve bem em paz.

Com invasões inglesas em 1918 e 1941 [será qe a actual conta?] veio mais tarde a invasão americana, entre 1980 e 1988.

Pouco depois, a chamada primeira guerra do Golfo, novamente com os americanos, em 1991 [a famosa operação 'Tempestade do Deserto'], e depois dessa, a segunda, que começou em 2oo3 e ainda hoje continua, sem sucesso, sem data de retirada, e com muitos mortos em todos os lados, naquilo que são os escombros de uma terra milenar, cujo património artístico é [veja-se o tesouro de Nimrud, por exemplo], ou era genial, antes de destruído ou roubado por invasores ou oportunistas internos.

Depois de tanta confusão, não sei se faz muito sentido atirar para os 'iraquianos' os restos do seu país, para que o governem.

Até porque já nem deve haver muito para governar. Nem pessoas, nem património.

Seria interessante que a UE tomasse uma posição, em vez de ir a reboque, como de costume.

Foto: painéis de Nimrud no Museu Britânico

Marcadores: , , , , , ,

21 julho 2007

'Crime de honra'



O mundo 'chocou-se' com a história de Banaz Mahmod, de 20 anos, que terá sido assassinada por estrangulamento com 'cordões de sapatos' pelo próprio pai.

Se as condenações foram 'exemplares', seria interessante saber também o que acontece à polícia que, após as primeiras queixas de violência, que terão sido apresentadas pela jovem com identificação do seu pai, nada teria feito.

E ainda -- porque envolve o Estado e muitos outros casos -- da aparente 'política de ingerência' da polícia britânica em 'assuntos familiares' de 'minorias étnicas'.

Marcadores: , , , ,

20 julho 2007

O caso não foi em vão...



Num Reino Unido inundado de água e agora de livros do Harry Potter, soube-se hoje que a morosa e mediática investigação 'Cash for Peers', em que se apurava se o Partido Trabalhista inglês, com o apoio do Primeiro Ministro 'Tony' Blair tinha conferido peers por donativos ao 'partido', em 'nada deu'. Há 732 peers na House of Lords. Dos quais 600 são vitalícios. A maioria desses foi retirada, mas restam 92.Os outros mantêm-se Lords, mas deixaram de ter lugar no Parlamento.

É o que todos parecem queixar-se: que a investigação foi um flop. Que depois de se interrogar várias vezes o Primeiro Ministro e outras individualidades, durante 1 ano e 4 meses, e um milhão de libras ['300 mil contos'], com raids na residência do primeiro-ministro, incluindo a retirada de computadores para exame, a nada se chegou, nada se conseguiu provar.

'If any person accepts, obtains or agrees to accept or obtain from any person, for himself or for any other person, or for any purpose, any gift, money or valuable consideration as an inducement or reward for procuring or assisting or endeavouring to procure the grant of a dignity or title of honour to any person or otherwise in connection with such a grant, he shall be guilty of a misdemeanour'
s.1 do 1925 HONOURS (PREVENTION OF ABUSES) ACT.

Não é verdade.

Fez-se cair um primeiro ministro.

E agora, faz-se cair um inquérito.

Assim acontece.

Marcadores: , , ,

13 julho 2007

Rogue Trader


Foi o nome dado à autobiografia e filme de Nick Leeson, o 'jovem' inglês que era trader no Barings, o primeiro banco de investimento de Londres, aberto em 1762 e falido em 1995, devido a cerca de um bilião de dólares perdido em dois anos de posições abertas por Leeson enquanto trader de futuros para o Barings em Singapura.

Leeson acabou por ser preso por fraude em Singapura e libertado em 1999, 4 anos depois, e hoje o seu 'êxito' nos mercados [era o maior trader no SIMEX, o mercado de futuros de Singapura, incorporado no ano da libertação de Leeson e do lançamento do filme -- na bolsa de Singapura] foi substituído pelos discursos que faz em vários eventos sociais, podendo ser 'contratado' através da agência NMP.



A falência do Barings -- que colocou a primeira emissão de obrigações portuguesas no exterior, em 1802 --continua a ser, ao lado da fraude do BCCI, o maior escândalo financeiro mundial e a demonstração de como a regulação dos mercados é importante, por um lado, e de como mesmo no mais sofisticado dos ambientes tudo pode ir ao ar por algo aparentemente insignificante ou negligentemente ignorado.

O filme é relativamente banal, mas vale a pena ler o livro que, como todas as autobiografias, não será 'a verdade', mas um conjunto de dados que merecem análise, sobretudo para quem se interessa por mercados financeiros, economia, direito, gestão, ou simplesmente queira perceber como tudo se passou. Mesmo para quem já conhecia o caso, é sempre uma oportunidade de ler alguns desabafos que devem ter incomodado o interior do Barings e dos seus clientes, e a esse preço animar [e até certo ponto informar] o leitor.

Como referiu o NYTimes ao criticar o livro quando publicado, 'Mr. Leeson prefers to place the blame on superiors, who in his view had more blue blood than brains, and who failed to spot some clear signs of fraud'.
...
'Mr. Leeson, who is the son of a plasterer, clearly views himself as a working-class hero. He never went to college, but managed to get a job in the back office of a British bank, and then moved on to Morgan Stanley and to Barings, where he sorted out the trades others had made and learned the nuts and bolts of the options and futures markets.'
...
'British press reports, denied by Mr. Leeson's lawyer, say investigators have located $35 million in Leeson bank accounts. This book certainly provides no clue as to how such a sum might have been accumulated.

The fraud should have been spotted in 1993, not long after it began, rather than remaining hidden until Mr. Leeson quit early in 1995. But auditors failed to make obvious checks and accepted idiotic answers when they did spot something odd.'

...
This is a dreary book, written by a young man very taken with himself, but it ought to be read by banking managers and auditors everywhere. Those who don't need the lesson will simply be astounded by the attitudes of the author, who is appalled by a Bank of England report that lets his superiors off easy when, to Mr. Leeson's mind, it was their bad management, far more than his perfidy, that brought on the collapse'.

Nick LEESON e Edward WHITLEY [1996] Rogue Trader: How I Brought Down Barings Bank and Shook the Financial World, London: Little, Brown & Company

Marcadores: , , ,

07 maio 2007

Goya fantasmagórico


Já estamos a imaginar o efeito: vão aparecer uns livrinhos manhosos sobre Goya e provavelmente fazer-se alguns programas de TV.

Acontece sempre isto quando aparece um filme sobre um determinado artista.

Mas sempre é melhor do que manter as pessoas na [absoluta] ignorância, mesmo que isso implique [horror dos horrores] ver quadros de Goya escarrapachados em mouse pads.

Vi esta semana o 'Goya's Ghosts', de Milos Forman.

A expectativa não era imensa, pela leitura da crítica e pelo fraco cast, mas era bastante por Forman, que embora tenha realizado poucos filmes ao longo dos últimos mais de 40 anos de carreira, realizou alguns bastante significativos, como Man on the Moon (1999), The People vs. Larry Flynt (1996), Valmont (1989) ou Amadeus (1984, este último mais maçador), encontrando-se agora a produzir Amarillo Slim (2008).

Gostei de Goya. Tenho duas biografias de Goya em espera, uma delas ficou mais ou menos a meio, em Lisboa, e com o filme estou mesmo decidido a retomá-las: porque o grau de detalhe do filme significa uma de duas coisas -- ou foi fiel à história, ou foi absolutamente paranóico.

Em qualquer dos casos, e apesar de um cast fraco e de um argumento algo inopinado [sempre que a mãezinha vai conhecer a filha desaparecida começa tudo aos tiros e afastam-se novamente], Goya's Ghosts tresanda a uma deliciosa ironia, sarcasmo e denúncia de hipocrisia e oportunismo, demonstrando como o 'mundo é pequeno' e como se põem e tiram líderes, oscilando entre o trono e a sarjeta, num balanço verdadeiramente intemporal, que tanto faz sentido na Espanha acossada por Franceses, Ingleses e o Vaticano [o filme é de resto uma história instantânea de Espanha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX], como na américa latina dos anos 80 ou no leste europeu nos anos 90 ou no Iraque, Líbano e Afeganistão agora ou em África... all the time.

Goya's Ghosts é um retrato delicioso da opressão, do ego e da natureza humana em geral. E é isso que justifica o tempo usado a vê-lo [e o bilhete, que em Londres são uns belos 15 euros].

Marcadores: , , , , , ,

30 abril 2007

E entretanto, na Câmara de Lisboa...


'O presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, escapou à crise que assola a autarquia, e da qual passou a principal protagonista ao saber-se que deverá ser ouvido como arguido pelas autoridades na quarta-feira no âmbito do processo Bragaparques, rumando para um encontro de motas antigas em Inglaterra com os amigos [...] Não é a primeira vez que Carmona sai do país em circunstâncias idênticas. Aconteceu o mesmo no auge do escândalo relacionado com a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), entre outras ocasiões'.

lê-se no Público.

Pode pois dizer-se que é uma ausência 'ordinária'.

Marcadores: , , , , , , , ,

12 abril 2007

Eça, sobre o Afeganistão


‘Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d’esse humoristico logar commum do seculo XVIII: «A Historia é uma velhota que se repete sem cessar».

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim uma imaginação exhausta.

Em 1847 os inglezes, e «por uma Razão d’Estado, uma necessidade de fronteiras scientificas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia...» e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes – invadem o Afghanistan, e ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem so serralho o velho emir apavorado; collocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegraphado a victoria, o exercito, acampado à beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desperta o correame, e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880. [...]

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, o que resta por fim? [...]

No entanto a Inglaterra gosa por algum tempo a «grande victoria do Afghanistan» -- com a certeza de ter de recomeçar, d’aqui a dez annos ou quinze annos, porque nem pode conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a França, nem póde consentir, collados á sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. A «politica», portanto é debilital-os periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades d’um grande imperio. [...]’

Eça de Queiroz [1928] Cartas de Inglaterra, Porto: Livraria Chardron, de Lello&Irmão, Editores, pp.5-9

Marcadores: , , , , , , ,