16 março 2008

Capitalismo de fachada


Continuamos a brincar à economia. Desta vez, e depois da escandalosa nacionalização do Northern Rock, é a ajuda da Fed ao Bear Sterns. Diz hoje o Financial Times que 'Fed leads Bear Stearns rescue'. A JP Morgan vai receber um empréstimo da Fed para comprar o Sterns a 1 décimo do seu valor. O que será pior? Nacionalizar algo falido ou emprestar dinheiro para alguém o comprar? Não sei.

E claro, perante a crise de liquidez, as acções do Bearn Sterns caíram a pique.

O FT é um exemplo, mesmo os jornais generalistas não falam sobre outra coisa (ver aqui o NYTimes).

Os bancos centrais estão a bombear fundos e fundos para aguentar a crise.

No capitalismo a sério, não seria assim. Num mundo onde o Estado é desprezado pelos neo-liberais e grandes defensores do mercado livre, a nova geração de políticos de esquerda soft e de direita moderada, contradiz-se.

Agora que a crise chegou, o mercado parece não ter nenhuma mão invisível; ou se tem, parece ter parkinson ou algo que o valha.

Não deixa de ser irónico que os maiores bancos de investimento do mundo, vistos como os verdadeiros Estados, o verdadeiro poder, estejam em queda.

Sobretudo, que precisem do Estado, que os nacionaliza (Northern Rock) assumindo todas as dívidas, ou financiando-os através dos bancos centrais. Só nos EUA foram 'entregues' ao mercado 280 biliões de dólares.

São os pobres, os cidadãos, que agora pagam a má gestão e os disparates que andaram a ser feitos pelos gurus do mercado.

E a desculpa do credit crunch já não engana ninguém. É bem pior que isso. A Enron e a Worldcom foram amendoins. E o Northern Rock também.

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28 fevereiro 2008

Hoje


'A simples verdade é que fui a Inglaterra espairecer' [p.v]

'Ha riqueza exuberante, e que tende a enriquecer cada vez mais os ricos, pondo-os frente a frente com plebes proletarias. É perigoso.'
[p.9]

'Só as grèves são meio efficaz: a acção do Parlamento é nulla e irrisoria' [p.13]

'Vê-se o esforço da gente rica, imaginando que com dinheiro se obtem tudo, e que, à custa de milhões, querem também ser artistas. Bem lhes basta o que são' [p.26]


'vão, cada qual atraz da sua chimera, e todos collectivamente, impelidos pela chimera colossal do made money. é decerto isso que os imbelicisa [...] como sombra de tanta grandeza, nunca em parte alguma vi brutalidade mais bruta, nem estupidez mais estupida'
[p.31]

'A máxima do time is money é um erro completo. Porque ninguem desperdiça mais o tempo por falta de methodo. Gastam-no inutilmente, nao na ociosidade, pois se agitam sem cessar; mas gastam-no sem saberem utilisal-o intelligentemente' [p.45]

'o segredo da fortuna colonial britannica está nos dotes (ou na ausenca de dotes) dos homens. Destituidos de idéas, systemas e preconceitos, [...] levados unica e energicamente pelo instincto de ganhar, moldam-se as circunstancias' [p.111]

'n'uma sociedade onde a ostentacao e o luxo acendem a cubiça dos que teem menos, a miseria e insupportavel' [p.131]

'o saber nao constitue um fim, é apenas o meio de ganhar dinheiro [...] é a bagagem com que partem, não é uma educação que levem' [p.133]

'esta poderosa sociedade capitalista tem os pés de barro, esta montanha colossal de riqueza assenta sobre contrafortes de miseria inconsistente e esboroadiça' [p.203]

OLIVEIRA MARTINS [1893] A Inglaterra de Hoje, Lisboa: A.M. Pereira

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17 maio 2007

Moves


Num país civilizado com uma economia moderna e pessoas arejadas, uma move é comum e óptima.

Significa que há pessoas com talento que não ficam no 'quentinho' e que partem de um projecto interessante [ou que está a perder interesse] para um projecto mais interessante.

Há quem não pense assim.

A Linklaters é uma grande sociedade de advogados inglesa representada em Portugal, com um pequeno escritório de gente atarefada.

Alguns dos advogados desta sociedade saíram para um projecto mais interessante. Mas antes disso suceder a sociedade ameaçou despedi-los.

Portugal continua a ficar 'zangado' com certas coisas, e esquece-se de que a economia liberal e de mercado que tanto de propagandeia é assim.

A notícia veio no The Lawyer, e um pouco por qualquer praça financeira, a risota era incontrolável.

Quem ameaça despedir alguém por causa de uma move?

A pergunta parece ter agora uma resposta: a Linklaters Lisboa.

Curiosamente, cerca de uma semana depois, o associado Joacim Björk saiu da Linklaters Estocolmo para a Linden Gruppen como sénior. Seguindo o próprio, também à The Lawyer, pagavam-lhe o dobro e foi inevitável recusar.

É curioso como aqueles que defendem o mercado livre acabam por não o revelar em ca[u]sa própria.

Se há moves é porque as empresas [ou sociedades de advogados, ou outra coisa qualquer] não são competitivas.

E no limite, extinguem-se.

Isto acontece com empregos como com casamentos. Se aparecer algo melhor, adeusinho.

Quem quiser pode discordar. Mas isso não serve de grande coisa.

É a vida.

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01 maio 2007

Andreas Gursky


é um dos mais conhecidos fotógrafos na actualidade e tem um novo trabalho, que vi em Londres esta semana.

Desta feita a ideia não é genial. Mas Gursky deu-se ao trabalho de ir lá fotografar.

Se a série com a F1 não tem piada nenhuma [digna no entanto de banco de imagens, como diria uma amiga minha na 'indústria' de arte contemporânea], a série Pyongyang vale a pena.

Gursky não teve trabalho nenhum quanto á realidade que fotografou, ue no entanto é o resultado do trabalho de milhares de 'modelos': os norte-coreanos alinhados nas famosas manifestações de poder político local, em pleno festival.

É especialmente interessante como o alinhamento e a uniformização típicas do trabalho de Gursky e da sociedade contemporânea existem tanto na sociedade 'capitalista' como na sociedade 'norte-coreana'.

A não perder, nem que seja no site do White Cube ou em livro, se bem que ter a série de fotografias à frente [em regra com 2 por 3 metros] seja bem parte do jogo. E o resultado é impressionante. Para não dizer hipnótico.

Andreas Gursky
23 de Março a 5 de Maio no
White Cube
25-26 Mason's yard, St. James
[acesso pela Duke Street, lado esquerdo de quem desce no sentido St. James Sq. vindo de Jermyn St.]

depois dessa data:

Casa da Arte, Munique;
Museu de Arte Contemporânea de Istambul; e
Museu Sharjah, nos Emiratos

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