12 outubro 2007

Tiques autoritários.


Tem sido assim a caracterização geral do actual governo PS, chefiado por José Sócrates, feita pela imprensa e o 'public eye'.

É interessante porém, face a esta 'classificação', ler esta parte inicial de um decreto-lei publicado hoje no Diário da República, sobre reconhecimento em Portugal de graus académicos estrangeiros:

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR
Decreto-Lei n.º 341/2007 de 12 de Outubro


A mobilidade das pessoas e das ideias está na base das
sociedades e das economias do conhecimento.
Superar atavismos corporativos e ilusões de auto-
-suficiência é exigência do País neste momento de desafios
e de oportunidades.


Nem mais.

Sublinho a parte 'superar atavismos corporativos' [que podemos ler até como partidários ou governamentais] 'e ilusões de auto--suficiência'...

imagem: capa da Chiquilín uma revista espanhola, este número de 1924.

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08 setembro 2007

Goya em filme.



Falei dele aqui em 7 de Maio e republico, porque como vi em Londres nem me apercebi na altura que o filme não tinha saído em Portugal. Parece que volvidos 4 meses, os portugueses podem ver Goya's Ghosts, de Milos Forman.

Aqui está o que escrevi na altura, desta vez com o trailer:


'Já estamos a imaginar o efeito: vão aparecer uns livrinhos manhosos sobre Goya e provavelmente fazer-se alguns programas de TV.

Acontece sempre isto quando aparece um filme sobre um determinado artista.

Mas sempre é melhor do que manter as pessoas na [absoluta] ignorância, mesmo que isso implique [horror dos horrores] ver quadros de Goya escarrapachados em mouse pads.

Vi esta semana o 'Goya's Ghosts', de Milos Forman.

A expectativa não era imensa, pela leitura da crítica e pelo fraco elenco, mas era bastante por Forman, que embora tenha realizado poucos filmes ao longo dos últimos mais de 40 anos de carreira, realizou alguns bastante significativos, como Man on the Moon (1999), The People vs. Larry Flynt (1996), Valmont (1989) ou Amarillo Slim (2008).



Gostei de Goya. Tenho duas biografias de Goya em espera, uma delas ficou mais ou menos a meio, em Lisboa, e com o filme estou mesmo decidido a retomá-las: porque o grau de detalhe do filme significa uma de duas coisas -- ou foi fiel à história, ou foi absolutamente paranóico.

Em qualquer dos casos, e apesar de um cast fraco e de um argumento algo inopinado [sempre que a mãezinha vai conhecer a filha desaparecida começa tudo aos tiros e afastam-se novamente], Goya's Ghosts tresanda a uma deliciosa ironia, sarcasmo e denúncia de hipocrisia e oportunismo, demonstrando como o 'mundo é pequeno' e como se põem e tiram líderes, oscilando entre o trono e a sarjeta, num balanço verdadeiramente intemporal, que tanto faz sentido na Espanha acossada por Franceses, Ingleses e o Vaticano [o filme é de resto uma história instantânea de Espanha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX], como na américa latina dos anos 80 ou no leste europeu nos anos 90 ou no Iraque, Líbano e Afeganistão agora ou em África... all the time.

Goya's Ghosts é um retrato delicioso da opressão, do ego e da natureza humana em geral. E é isso que justifica o tempo usado a vê-lo [e o bilhete, que em Londres são 10 libras, uns belos 15 euros | '3 contos'].

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04 junho 2007

Reggie


É curioso como o ego move as pessoas, e por consequência o mundo, embora mais das vezes no sentido errado.

O caso de Reggie é um exemplo disso.

Reggie é desde 1923 a mascote do King's College, o principal college da Universidade de Londres e, portanto... de Londres. E provavelmente a terceira universidade mais conhecida da Europa, depois de Oxford e Cambridge, de onde vieram vários dos professores do King's, aberto em 1829.

A mascote é uma escultura em forma de leão. Sendo o college chamado 'King's', e o leão o rei da selva, e Regis rei em latim, língua académica por excelência, suponho que as conclusões são óbvias.

A Universidade de Londres tem outros colleges, como o Queen Mary, o University College [UCL] ou a London School of Economics [LSE].

Em 1927, Reggie foi 'raptado' por dois estudantes do UCL, tendo cerca de 1000 estudantes protagonizado uma certa batalha da qual dois estudantes da UCL foram presos [curiosamente ambos eram filhos de membros do clero].

Em 195o, o Reggie foi enviado para um hotel em Inverness, na Escócia, por uns alunos do Queen Mary. Alguns estudantes do king's reuniram-se e foram de comboio para a Escócia salvar Reggie.

Dez anos depois, o Reggie foi colocado num comboio na estação de King's Cross por estudantes do UCL. Foi encontrado na sala de perdidos e achados da estação de Newcastle.

Em 1967 foi novamente roubado, mas desta vez abandonado perto de Guildford.

Em 1981 casaram-no com uma 'leoa', que desapareceu e nunca foi encontrada.

Em 1993 Reggie desaparece e é encontrado apenas em 2oo3 no campo de tiro.

Hoje, 2oo7, encontra-se na associação de estudantes, depois de uma vida que se espera mais calma e sem mais necessidades extremas de restauro...

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07 maio 2007

Goya fantasmagórico


Já estamos a imaginar o efeito: vão aparecer uns livrinhos manhosos sobre Goya e provavelmente fazer-se alguns programas de TV.

Acontece sempre isto quando aparece um filme sobre um determinado artista.

Mas sempre é melhor do que manter as pessoas na [absoluta] ignorância, mesmo que isso implique [horror dos horrores] ver quadros de Goya escarrapachados em mouse pads.

Vi esta semana o 'Goya's Ghosts', de Milos Forman.

A expectativa não era imensa, pela leitura da crítica e pelo fraco cast, mas era bastante por Forman, que embora tenha realizado poucos filmes ao longo dos últimos mais de 40 anos de carreira, realizou alguns bastante significativos, como Man on the Moon (1999), The People vs. Larry Flynt (1996), Valmont (1989) ou Amadeus (1984, este último mais maçador), encontrando-se agora a produzir Amarillo Slim (2008).

Gostei de Goya. Tenho duas biografias de Goya em espera, uma delas ficou mais ou menos a meio, em Lisboa, e com o filme estou mesmo decidido a retomá-las: porque o grau de detalhe do filme significa uma de duas coisas -- ou foi fiel à história, ou foi absolutamente paranóico.

Em qualquer dos casos, e apesar de um cast fraco e de um argumento algo inopinado [sempre que a mãezinha vai conhecer a filha desaparecida começa tudo aos tiros e afastam-se novamente], Goya's Ghosts tresanda a uma deliciosa ironia, sarcasmo e denúncia de hipocrisia e oportunismo, demonstrando como o 'mundo é pequeno' e como se põem e tiram líderes, oscilando entre o trono e a sarjeta, num balanço verdadeiramente intemporal, que tanto faz sentido na Espanha acossada por Franceses, Ingleses e o Vaticano [o filme é de resto uma história instantânea de Espanha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX], como na américa latina dos anos 80 ou no leste europeu nos anos 90 ou no Iraque, Líbano e Afeganistão agora ou em África... all the time.

Goya's Ghosts é um retrato delicioso da opressão, do ego e da natureza humana em geral. E é isso que justifica o tempo usado a vê-lo [e o bilhete, que em Londres são uns belos 15 euros].

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15 abril 2007


'There's things I haven't told you
I go out late at night
And if I was to tell you
You see my different side

[...]

We don't care
What you say
I'mma do my thing
From day to day
(Get it?)
We don't care
What you think
'Cause in this world
It's Swim-or-Sink
[...]'

Audio Bullys [2003] 'We Don't Care', in Ego War

album: Ego War (2003)

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27 março 2006

A Alternativa


Encontrei-a nas escadas. Tinha-a conhecido há pouco tempo e agoa já nem a vejo, mas na altura, ao vê-la com os auscultadores e o já banal leitor de MP3, fiquei com a curiosidade de saber o que ouvia. Diz-me aquilo que ouves e...

E lá perguntei.

E lá respondeu.

'Ah é música alternativa, você não conhece...'.

Os meus neurónios ficaram a conjugar os elementos da coisa:

- o idiota 'você', a fazer-lhe lembrar as entrevistas da Maria João Avillez;
- o 'Ah';
- o tom;
- a palavra 'alternativa'.

Ao lado a parte emocional [a saber, o tom, o ah displicente, e o 'você' oscilante entre o blasé e o menorizante] tilintou a palavra 'alternativa'.

Alternativa a quê?

Música alternativa a quê? à Rock? e essa não era alternativa à Pop? Ou vice-versa? E essas não eram alternativas ao jazz? e o jazz à clássica? E todas umas às outras, não?

O que é que há de alternativo nisto tudo?

Não faço a mínima ideia. E não vou perder muito mais tempo a descobrir.

Mas faz-me lembrar um post anterior... será Ego?

Sei é que nunca mais falei com ela.


Imagem: Juan GRIS [1926-27] Guitar and Music Paper, Saidenberg Gallery, New York

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23 março 2006

Ego


Só quem não tem complexos de Ego é verdadeiramente sincero.

E só quem é sincero passa ao lado dos complexos de Ego.

Lorenzetti
já terá citado por aqui a frase extraordinária de Federico Fellini sobre a sinceridade:

'As soon as you reveal yourself to be completely sincere, you're either breaking the rules or making yourself incomprehensible. Excessive sincerity verges on indecency'

E assim acontece. Ser sincero e não ter problemas de ego -- desde logo tratar os outros, sejam quem forem, de igual para igual e não esconder pensamentos -- continua a ser um escândalo, algo de indecoroso, indecente, desagradável... 'inconveniente'!

Azar.

Ser um complexado de Ego é ser normal. Viver com segredos e fingir que está tudo bem. Inventar histórias de cama, apanhar bebedeiras não pelo gozo, mas para contar, não avançar num projecto empresarial ou amoroso com medo de falhar e dar a cara.

Ser pobre, negro, gay, velho demais, novo demais, ser mulher, correr o risco de a mulher andar com outro, viver na Reboleira e não na Av. do Restelo, tudo faz os Portugueses complexados.

As pessoas não são aquilo que querem, são aquilo que acham que os outros querem ver.

E fazem isto em relação umas às outras, o que não deixa de ser uma peculiar reciprocidade. Toda uma complexa rede de complexos...

Sinceramente não há paciência.

O atraso de país não é económico, é endémico e cultural. É não saber escrever nem estar à mesa, é cuspir para o chão, bater na mulher, nos filhos, é os filhos andarem à pancada com os colegas por uma borracha ou um borracho, ou simplesmente andarem emborrachados.

É o pânico das compras, muitas vezes que coisas sem gosto nenhum (mas 'estão na moda') nem personalidade própria.

É dizer que não têm dinheiro para impostos, educação e saúde e gastarem milhares por ano em tabaco, vodkas, TV cabo, pastilhas elásticas, fotografias, caipirinhas, roupa, chocolates, batatas fritas, algodão doce, tremoços, cerveja, concertos de verão, jogos de futebol, cafés, cinema, férias...

É o ego, aquele complexo. Ter de ter, mais do que ter de ser ou, melhor, gostar de ser. Manadas e hordas. É o fenómeno 'classe média', que quer ser tudo menos média, e que é tudo abaixo de mediana.

O país que temos não é o do choque tecnológico ou fiscal.

É um país que precisa de saber escrever e sobretudo pensar. Pensar não só em números e letras, em Filosofia, Física Quântica e Fundos de Investimento Mobiliário.

Precisa de pensar em si, ter personalidade própria e forte, sem no entanto ser egoísta ou insensível.


Lorenzetti
não me parece muito esperançado, mas não deixa de tentar.


Imagem: Jonathan Rhys-Meyers no papel de Chris Wilton em Match Point - uma personagem que transpira ego. Como o slogan do filme, 'there are no little secrets', acompanhado das taglines 'Love / Lust; All / Nothing; Truth / Deception'. É isso.

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