06 abril 2008

Casamento.

O PS, talvez para distrair os portugueses das questões fundamentais -- e que motivam as manifestações já rotineiras e vaias ao Primeiro-Ministro onde quer que vá -- resolveu alterar o regime jurídico do casamento enquanto contrato civil.

Confirme-se, desde logo, que Lorenzetti não é contra o PS: é contra a incompetência, o disparate e a incoerência. Lorenzetti não é por outro partido: é apartidário e não se revê na política de partidos como estão. Lorenzetti não é católico: não tem qualquer religião.



Como alguém referiu ontem, o casamento foi importado da igreja [onde é sacramento e não contrato] para o direito civil, para os códigos civis, onde quem os criou achou que podia regular tudo, numa espécie de fanfarronice ou imperialismo jurídico.

Entretanto, tem sido 'suavizado' enquanto contrato face ao sacramento: hoje em dia, tirando a culpa, como propõe o PS, o casamento fica praticamente igual à união de facto... Retirar a culpa ao casamento, enquanto contrato civil, é matar o contrato. É dizer que os contratos não servem para nada, porque uma das partes pode quebrá-lo só porque sim, quando na verdade os contratos servem precisamente para garantir a estabilidade. Ora não haver culpa e 'rescisão' à vontade não é um contrato. É exactamente o contrário.



Estas incoerências da proposta do PS não são apenas do PS. Ou da proposta. As incoerências existem porque o casamento é um sacramento, e porque criar um civil não faz sentido nenhum: a igreja é a igreja, e o Estado é o Estado. E quem casa é a igreja.

Mas enfim, as pessoas gostam da festa, e casam-se. e o Estado foi na história, seja porque a populaça queria a festa -- mas não a Igreja -- seja porque o Estado quis regular tudo.

Porque a história do património é uma desculpa idiota. Quem quer gerir o seu património faz testamentos, doações, empréstimos, etc.. O casamento não deve ser usado para isso.



E a sua existência no Código Civil não faz sentido nenhum.

A proposta do PS tem pois um mérito: revela aos portugueses como o regime jurídico do casamento não tem sentido, tal como já alguns tinham percebido quando se 'criou' o divórcio e, bem mais recentemente, a união de facto, para não dizer 'casamentos gay'.

Bem andaria o PS se eliminasse, simplesmente, o casamento civil, uma excrescência do Direito.

As alterações que agora propõe revelam claramente que não faz sentido outro casamento que o sacramental, seja católico, seja a união através de outras religiões.

Tudo o resto são aberrações jurídicas e ataques à liberdade religiosa.

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06 outubro 2007

O Milagre das Velas.



O Gato Fedorento, Mr. Bean ou qualquer outro, não têm piada nenhuma comparados com Luciano Guerra. E quem é ele?

Numa entrevista publicada hoje no DN, o 'reitor' [!] do Santuário de Fátima, 'Monsenhor' Luciano Guerra, a propósito da abertura de uma mais uma igreja [esta custou 80 milhões de euros, mesmo havendo outras lindíssimas a cair por falta de fundos, além dos pobres a quem o reitor disse que daria 50% dos fundos, se 'tivesse agora mais 80 milhões de euros'], proferiu esta frase fantástica:

'estou a tentar que as pessoas, de forma gradual, usem velas electrónicas, que ardam com dignidade'.

Velas electrónicas e dignidade combinam tão bem, creio, como um elefante suado em latex rosa choc e o professor Salazar.

E o tamanho interessa. O jornalista do DN afirmou haver 35 alegadas aparições de 'Nossa Senhora', desde o século XX. O que faz Fátima algo de diferente? O 'Reitor' do Santuário de Fátima responde o seguinte:

'até eu recebo com muita frequência pessoas que dizem ter pretensas visões e aparições. Teve [Fátima] uma característica fortemente divina, pela quantidade de presença de Deus que aqui se manifestou e manifesta'.

Se eu dissesse isto quando andei na escola, mandavam-me fazer uma despistagem...

O tamanho interessa MESMO. Como refere o entrevistado, há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá o soco na mulher de três em três anos'.

Ora para o Reitor do Santuário de Fátima, um homem que bate na mulher com tal frequência [a dos 3 anos...] não comete um acto de 'gravidade suficiente para deixar um homem que a amava'.

Repare-se: não 'que ela amava', mas que 'ele amava'. Não deixam de ser detalhes deliciosos.

E continua.

'No tempo em que havia div´rcios havia situações bastante dolorosas, mas a pessoa resignava-se. A mulher dizia: calhou-me este homem, não tenho outra possibilidade, vou fazer o que posso'.

Bem, vou deixar a Internet. Vou ali dar um soco à minha mulher, e colocar uma etiqueta para o próximo, a 6 de Outubro de 2010... ámen.


[entrevista completa no Notícias Sábado, do DN, pp.12-18]

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29 setembro 2007

Fátima.


falámos aqui de Fátima, sobretudo para criticar o abuso da fé e da religião, e com sequência.

Desta vez falamos de Fátima a propósito da disparatada Igreja da Santíssima Trindade.


A estupidez da construção de novas igrejas
, a torto e a direito, sem qualquer cuidado arquitectónico, muitas vezes, não pode ser aceite.

A área de intervenção é de 35.673 m2, a área Bruta de construção 38.516 m2 [igual a 3 campos de futebol], o volume de construção de 130.000 m3, as vigas principais têm comprimento de 182 metros e meio, sendo a capacidade de 200 + 400 lugares sentados 'para portugueses' e 140 + 140 lugares sentados 'para estrangeiros' e confessionários para 32 'portugueses' e 16 'estrangeiros'. Um verdadeiro MacDonalds, tirando o preço: 80 milhões de euros.

Com a celebração dos '90 anos das aparições' [que se fossem hoje, teriam como consequência provável um teste de despistagem de drogas pela nossa GNR], inaugura-se esta nova Igreja, iniciada em Março de 2oo4, e que é simbólica.

Símbolo do desprezo pelo património histórico, artístico e religioso.

Pois há igrejas fantásticas; centenárias ou milenares, espalhadas por Portugal e por esse mundo fora, que estão a cair. Seria bem mais importante que se recuperassem essas, e se abandonassem planos megalómanos, de mercantilização da religião.

Como se de um hamburguer se tratasse.


imagem: Convento do Carmo, um dos exemplos mais típicos de património degradado e nunca restaurado. O mesmo se aplica a muitas, tantas, igrejas e conventos, como se sabe, alguns tão importantes, como a capela do Castelo dos Mouros [do tempo de D.Afonso Henriques e que continua sem tecto e sem paredes na nave, mas onde ainda se notam frescos no altar] ou as famosíssimas 'capelas imperfeitas', do Mosteiro da Batalha.

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26 agosto 2007

E ainda há quem diga que Portugal é laico.



Artigo 2220.º do Código Civil Português

[ Testamento feito em caso de calamidade pública ]

1. Se qualquer pessoa estiver inibida de socorrer-se das formas comuns de testamento, por se encontrar em lugar onde grasse epidemia ou por outro motivo de calamidade pública, pode testar perante algum notário, ,juíz ou sacerdote, com observância das formalidades prescritas nos artigos 2211º ou 2212º.

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19 julho 2007

Portugal: a cultura do pato bravo.


'Os vestígios e as estruturas' [ver abaixo] como esta, estão em risco. Neste caso concreto, a capela do MNAA, pouco mais de um ano volvido da fotografia, parecem existir infiltrações e parcial desabamento do tecto da capela, que teve de ser encerrada e não foi incluída na apresentação das renovações levadas a cabo este ano no MNAA [e mesmo assim sem grande apoio público, sendo grande parte das obras financiada pela própria construtora civil conhecida da directora do MNAA].

Enquanto isso, constroem-se estádios e planeiam-se aeroportos.




Candida HÖFFER, 09.09. - 28.10.2006

Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa I 2005, 2005
Ed.: 3/6
C-Print
252,4 x 205 cm

Em 2005 o CCB convidou a fotógrafa alemã Candida Höfer a visitar Portugal, para fotografar interiores de monumentos e edifícios públicos e privados portugueses.

As visitas decorreram entre Outubro de 2005 e Julho de 2006, e o resultado foi a série Portugal, que inclui cerca de 70 fotografias inéditas de grande formato com imagens dos interiores do Panteão Nacional, Mosteiro dos Jerónimos, Convento de Mafra, Sociedade de Geografia, Biblioteca Nacional, Palácio de Belém, Biblioteca e Palácio Nacional da Ajuda, Fundação de Serralves, Casa da Música, Coliseu do Porto e Biblioteca da Universidade de Coimbra, entre outros.

Candida Höfer elegeu o espaço como tema central da sua obra, 'espaços onde, apesar de ausente, o Homem marca presença constante através dos vestígios que deixou e estruturas que criou', como se lê no catálogo do CCB.

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27 fevereiro 2007

Música, Igrejas e 'Elites'


Entre outras coisas, diz Miguel no Blog do Piano que 'O que antes se limitava ao órgão fora substituído pela guitarra, bateria, baixo e piano. Tenros néscios. Aos poucos, os arquétipos estéticos e musicais alteraram-se e comecei a deixar o entusiasmo adormecer. Soltou-se uma toada funk e as congestões foram imediatas. A aconchegar o sono descontrolado estão as recomendações que os dirigentes dos coros debitam com devoção e credulidade. Nunca o apelo à sinceridade se tornou tão chato, tão irritante, tão intrusivo (um dia explanarei este tema). Ir à igreja possibilita a inquietação mas não aquela - a minha - inquietação. Tenho saudades do dirigente que apenas introduzia canções. Saudades do peso congregacional dos hinos. Saudades do uníssono brutal. Saudades do órgão. Acredito no órgão.'
Estas observações fizeram-me recordar uma recente e acesa discussão com um amigo meu, com a presença de um terceiro algo embasbacado.

Esse meu amigo é um católico fervoroso [adoro ter a ocasião de usar estas expressões].

É fervoroso também na música [aí já temos mais em comum].

No entanto não é um sujeito convencional.

Tem aquelas deliciosas contradições humanas, que nos tornam dignos de interesse. Gosta, por exemplo, dos poemas cantados de Manuel Alegre, apesar de ser, politicamente, de direita bem vincada.

E foi com ele que comprei discos dos Garbage, numa altura em que era mais dado ao jazz e à 'clássica'. Entretanto enveredei pela electrónica...

Ele [chamemos-lhe Wally] ficou escandalizado quando percebeu que me desagrada bastante ter-se esquecido a música clássica nas igrejas portuguesas, o local por excelência para ouvir Bach, Carlos Seixas, Charpentier, Morales, Häendel, Monteverdi, entre tantos, tantos clássicos.

Não digo -- nunca disse e espero não ser louco para pensá-lo -- que só de deve interpretar temas clássicos de forma clássica.

O que digo é que esses também existem. Não é só a guitarra e os coros juvenis da paróquia, por muito que isso seja importante para os próprios.

E há que equilibrar a balança.

Wally chamou-me elitista. Discordei.

Porque não fui eu que tirei essa música das igrejas e a pus em salas de concerto caras.

Foi a igreja. Foram pessoas como o Wally, que dirigem grupos corais de paróquias por este país fora.

Esqueceram séculos e séculos de música quase perfeita a favor de guitarradas que têm o seu lugar, mas não deviam ocupar todo o espaço.

Muito gostaria de ouvir novamente os clássicos nas igrejas.

Não vejo nisso elitismo. Pelo contrário, é democratização, aumento do acesso à música que alguns, estupidamente, chamaram 'erudita'.

Alguns que a tiraram do seu local natural, as igrejas.

Esses sim, são elitistas. E pior, ignorantes obscurantistas.

Wally, não te confundas com eles. Afinal, és meu amigo. E não foi por acaso que te tornaste um.

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'Guillaume Dufay was the composer charged with writing music for the Duomo's consecration ceremony on 25 March 1436' (I)['Nuper Rosarum Flores' [A Rosa Desabrocha].


'No only do the mensurations in the four sections have a proportional relationship of 6:4:3:2 [like the cathedral and its dome], but the number of tactus in each of the sections is the same as the number of braccia [the Florentine unit of measure] contained in the modular scheme based on twenty-eight braccia squares... What is more, there are twenty-eight breves in each of the two-voice and four-voice subsections of the motet, which means that the 'module' of the motet is the same as that of the catedral'. (II)

(I) David MAYERNICK [2003] Timeless Cities, An Architect's Reflection on Renaissance Italy, Boulder, CO: Westview Press
(II) WARREN [1973] Brunelleschi's Dome

Imagem: Catedral de Florença

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