06 outubro 2007

O Milagre das Velas.



O Gato Fedorento, Mr. Bean ou qualquer outro, não têm piada nenhuma comparados com Luciano Guerra. E quem é ele?

Numa entrevista publicada hoje no DN, o 'reitor' [!] do Santuário de Fátima, 'Monsenhor' Luciano Guerra, a propósito da abertura de uma mais uma igreja [esta custou 80 milhões de euros, mesmo havendo outras lindíssimas a cair por falta de fundos, além dos pobres a quem o reitor disse que daria 50% dos fundos, se 'tivesse agora mais 80 milhões de euros'], proferiu esta frase fantástica:

'estou a tentar que as pessoas, de forma gradual, usem velas electrónicas, que ardam com dignidade'.

Velas electrónicas e dignidade combinam tão bem, creio, como um elefante suado em latex rosa choc e o professor Salazar.

E o tamanho interessa. O jornalista do DN afirmou haver 35 alegadas aparições de 'Nossa Senhora', desde o século XX. O que faz Fátima algo de diferente? O 'Reitor' do Santuário de Fátima responde o seguinte:

'até eu recebo com muita frequência pessoas que dizem ter pretensas visões e aparições. Teve [Fátima] uma característica fortemente divina, pela quantidade de presença de Deus que aqui se manifestou e manifesta'.

Se eu dissesse isto quando andei na escola, mandavam-me fazer uma despistagem...

O tamanho interessa MESMO. Como refere o entrevistado, há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá o soco na mulher de três em três anos'.

Ora para o Reitor do Santuário de Fátima, um homem que bate na mulher com tal frequência [a dos 3 anos...] não comete um acto de 'gravidade suficiente para deixar um homem que a amava'.

Repare-se: não 'que ela amava', mas que 'ele amava'. Não deixam de ser detalhes deliciosos.

E continua.

'No tempo em que havia div´rcios havia situações bastante dolorosas, mas a pessoa resignava-se. A mulher dizia: calhou-me este homem, não tenho outra possibilidade, vou fazer o que posso'.

Bem, vou deixar a Internet. Vou ali dar um soco à minha mulher, e colocar uma etiqueta para o próximo, a 6 de Outubro de 2010... ámen.


[entrevista completa no Notícias Sábado, do DN, pp.12-18]

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29 setembro 2007

Fátima.


falámos aqui de Fátima, sobretudo para criticar o abuso da fé e da religião, e com sequência.

Desta vez falamos de Fátima a propósito da disparatada Igreja da Santíssima Trindade.


A estupidez da construção de novas igrejas
, a torto e a direito, sem qualquer cuidado arquitectónico, muitas vezes, não pode ser aceite.

A área de intervenção é de 35.673 m2, a área Bruta de construção 38.516 m2 [igual a 3 campos de futebol], o volume de construção de 130.000 m3, as vigas principais têm comprimento de 182 metros e meio, sendo a capacidade de 200 + 400 lugares sentados 'para portugueses' e 140 + 140 lugares sentados 'para estrangeiros' e confessionários para 32 'portugueses' e 16 'estrangeiros'. Um verdadeiro MacDonalds, tirando o preço: 80 milhões de euros.

Com a celebração dos '90 anos das aparições' [que se fossem hoje, teriam como consequência provável um teste de despistagem de drogas pela nossa GNR], inaugura-se esta nova Igreja, iniciada em Março de 2oo4, e que é simbólica.

Símbolo do desprezo pelo património histórico, artístico e religioso.

Pois há igrejas fantásticas; centenárias ou milenares, espalhadas por Portugal e por esse mundo fora, que estão a cair. Seria bem mais importante que se recuperassem essas, e se abandonassem planos megalómanos, de mercantilização da religião.

Como se de um hamburguer se tratasse.


imagem: Convento do Carmo, um dos exemplos mais típicos de património degradado e nunca restaurado. O mesmo se aplica a muitas, tantas, igrejas e conventos, como se sabe, alguns tão importantes, como a capela do Castelo dos Mouros [do tempo de D.Afonso Henriques e que continua sem tecto e sem paredes na nave, mas onde ainda se notam frescos no altar] ou as famosíssimas 'capelas imperfeitas', do Mosteiro da Batalha.

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