07 setembro 2007

O povo na televisão ?



A democratização da TV portuguesa começou com programas como o 'Praça Pública', da SIC, em que se discutiam problemas tão prosaicos como importantes para os portugueses, como o buraco da rua XPTO.

Hoje temos programas onde todos telefonam e berram à vontade. Género catarse.

Podia ser melhor; podia ser uma verdadeira [idílica? utópica?] maresia de opiniões, argumentos, discussão produtiva e inteligente com troca de experiências e aumento de resultados.

Mas não.

É, essencialmente, um saco de boxe, onde um jornalista desgraçado apanha com telefonemas de boys [ou forever-wannabe boys] de partidos, e/ou de maluquinhos, e/ou de pessoas que ainda não perceberam que Portugal é uma democracia constitucional, onde a polícia não pode espancar pessoas, onde os professores até são pessoas, onde os funcionários públicos não são todos ineficientes e malandros, onde os sindicatos não são oportunistas, onde nem todos os empresários são honestos, onde nem todos os políticos são tachistas e corruptos.




O espectador-tipo que telefona para esses programas é, no mínimo, um português reaccionário ou uma dona de casa ressabiada. Um pseudoempresário que acha que o recibo verde é bom e igual para todos, sejam trabalhadores independentes ou não. Onde os esquerdistas comem todos criancinhas ao pequeno almoço e onde o PNR é bom porque diz aquilo que 'os portugueses pensam mas não dizem'. Um reformado que acha que a pena perpétua é coisa fraca e que a pena de morte é que é boa.

Preocupa-me o ódio e o tom básico e simplista com que falam os telespectadores, que parece resultar de um qualquer trauma que ultrapassa a questão do analfabrutismo nacional e ser sintomático no submundo deste país, que é o meu.

Ódio à função pública, aos políticos, aos sindicatos, aos emigrantes. Ódio à vida em geral.

Será que isto nunca mais acaba?

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03 agosto 2007

Reminder

Para os esquecidos, estejam onde estiverem.

Estamos em Portugal e somos portugueses. E temos uma Constituição.

Na Constituição temos o conjunto dos direitos e deveres enquanto cidadãos.

E temos a organização da nossa economia, sociedade, cultura, política e justiça.

Importa neste momento da vida nacional recordar que o artigo 2.º reconhece que 'a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa'.

E que no artigo seguinte, se diz que 'A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas previstas na Constituição. O Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade democrática. A validade das leis e dos demais actos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição'.

É também tarefa fundamental do Estado, diz-nos o artigo 9.º, 'garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático, defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais, [...] proteger e valorizar o património cultural do povo português'.

Pelo por mais 'engenharia constitucional' que se faça, não se pode fugir a isto sem fugir à lei, à legitimidade popular e àquilo a que podemos chamar de bom senso, boa educação e honestidade.

Era só para lembrar.

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18 fevereiro 2006

Algo


OS movimentos sociais [?] islâmicos são dignos de nota.

Ao lado da violência, da religião e da política mais evidentes, há um lado extraordinário: o que motiva milhares de pessoas a sair à rua? A deixarem a sua casa, o seu trabalho ou o seu entretenimento, e a fazerem cartazes, a gritar a mover-se na praça pública, com expressões de sincera emoção?

Não são actores, são meros cidadãos locais. É o povo.

É sabido que cada um vê o que quer. Aos nossos olhos, podia ser uma manifestação bestial de cidadania: pessoas que de facto se interessam pela coisa pública, pelo viver colectivo, por política.

Pessoas que se sentem ofendidas com o sucede noutros países e culturas, e que defendem o seu e a sua.

Pessoas que se mexem, por não quererem ou não terem distracções como televisões, cinemas, centros comerciais ou férias.

Será um escape? Será uma opção?

Será cidadania? Será manipulação?

Será fanatismo religioso? Será independência e maturidade política e consciência crítica?

Não sabemos.

Mas é algo.

E esse algo merece ser muito bem estudado.

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