Para nós não há novidades, é o costume, desde os anos 70.
O PSD teve vida apenas com dois líderes: Sá Carneiro, fundador; Cavaco, reanimador.
O resto é conversa.
E Menezes uma insignificância como todos os outros líderes. O PSD perdeu Sá Carneiro e a ideologia. E Cavaco, sem ela, tinha um carisma que funcionou. Os restantes líderes, sem carisma ou ideologia, nada fizeram.
Por isso, com a saída de Menezes, não há uma crise no PSD.
A crise prática existe desde os anos 90, e a ideológica deste 80.
A solução passa por um partido de direita, com o PSD e o CDS, e quem sabe alguns do PS, que hoje é, em boa verdade, um PSD.
O PSD não precisa de mais um líder, mas de um partido.
Escrever sobre estes temas é sempre complicado. Primeiro porque exigem inteligência política, filosófica, histórica e até psicológica. Segundo porque nos arriscamos a levar uma bela sova. No mínimo.
E é por estas razões -- sobretudo pela primeira -- que este texto pode não ser perfeito e porque apontamos pontos positivos e negativos à extrema direita portuguesa.
E é para mim interessante pensar e escrever sobre a extrema direita em Portugal por várias razões. Uma delas é porque o meu estilo de vida é muitas vezes associado à direita tradicional [prefiro a caça ao futebol e o cognac à cerveja, o contador indo-português ao móvel IKEA e o charuto ao cigarro, por exemplo], mas até me acho bastante liberal [não no sentido económico] em muitas coisas. Não me considero pois de esquerda ou de direita puras, e odeio o oportunismo e vazio do centro.
Escrever sobre direita é pois um desafio interessante e agradável.
O motivo é o caso Mário Machado; um exemplo sublime de léxico e inteligência política. A vénia a Mário Machado, embora discorde dele em muitos outros aspectos. Mas com o respeito que a democracia exige entre portugueses livres e conscientes.
Machado conta, desde logo, com o apoio indefectível de José Pinto Coelho, do PNR, um partido legal, quando a Constituição proíbe 'associações armadas nem de tipo militar; militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista' (art. 46.º-3) e o prefácio até prevê o 'caminho para uma sociedade socialista'. É uma vitória fundamental de José Pinto Coelho e de Mário Machado.
A questão lexical referida envolve situações como a negação de racismo opondo o conceito racialismo.
Defendendo, por exemplo, que o orgulho branco não é um acto racista, mas um acto de orgulho nacional ou racial.
Outra vitória de Mário Machado é ter conseguido que o Bastonário da Ordem dos Advogados o tenha visitado, sem que os advogados nem a classe jurídica, nem o Presidente da República o tenham censurado o Bastonário por isso. O Bastonário terá dito que só foi visitar alguém de cuja prisão preventiva discorda. Ora haveria milhares de presos preventivos que poderiam ter sido visitados para o mesmo fim. Mas o Bastonário visitou um: Mário Machado.
Foi igualmente interessante a referência à sua situação como de prisão política, invocando o 25 de Abril [mês no qual estamos, curiosamente] e exigindo liberdade de expressão.
A extrema direita tem razão numa coisa: os portugueses, ou as pessoas em geral, têm uma opinião semelhante a eles. É um dos paradoxos da democracia e da natureza humana: ao amor possível entre as pessoas, junta-se o ódio e a inveja. E 'no fundo' as pessoas, portuguesas ou não, são racistas. Não digo que isso seja bom, ou aceitável, ou desejável. Apenas digo que isso é um facto. Achamos sempre que não deve haver racismo. Mas casaríamos com um negro/a? Não. É um facto. Acharíamos piada a ter um filho transsexual? Não, mesmo que digamos o contrário. Não é por acaso que as elites raramente têm negros ou hispânicos, mesmo em países com imensos, como os EUA ou Inglaterra. E Pinto Coelho sabe isso e, com mestria, sabe sugerir que os portugueses pensam como ele. E acredito que muitos pensem. E a maioria, mesmo que não seja racista, age de modo racista. É um facto.
O que já não creio ser aceitável é a utilização da violência. E Pinto Coelho -- que até suspeito ser meu primo bem afastado -- sabe que a maioria dos portugueses concorda comigo. E é por isso que disse esta semana que Mário Machado soube passar de lutador armado para lutador político. Foi mais uma vitória de Mário Machado, apoiada no léxico e na inteligência conjunta com Pinto Coelho.
Esta distinção é fundamental: torna o PNR e o grupo de Mário Machado mais atraentes para os portugueses, num momento de crise do bloco central: os portugueses estão fartos do PS e PSD e odeiam os comunistas [que acham sempre iguais e maus] e pelos bloquistas [que foram moda e não passaram disso] e ainda menos pelo CDS [idem quanto à moda, conseguida e perdida por Paulo Portas].
O problema é que a prisão de Mário Machado [ou a 'última gota de água', para as autoridades] deveu-se -- aparentemente -- ao facto de ter aparecido na SIC exibindo armas alegadamente ilegais e a defender um putativo levantamento.
E esta foi a falha. Se isso pode trazer-lhe apoiantes de estrato médio [os activistas] causa-lhe dois problemas: perde militantes de base [porque o povo tenta evitar a luta armada e quer apenas luta política] e causa confrontos com o poder judicial [que embora descredibilizado, não está tanto que o povo se vire em defesa de Machado, que aí seria mártir, mas que para já não se torna].
No entanto, apesar desta falha, é sempre um treino, e Mário Machado conta com todos os pontos ganhos com o referido acima: tem o apoio do PNR, partido político legalizado, e com o apoio inédito do Bastonário da Ordem dos Advogados. E com uma inteligência política admirável.
Embora não concorde com as ideias de Mário Machado -- desde logo a utilização da força e o culpar os estrangeiros de todos os nossos males -- respeito a sua inteligência e a forma como tem gerido este processo, verdadeira aula de ciência política, juntamente com Pinto Coelho do PNR. Creio no entanto que matar não é a melhor solução, nem sou fã de tatuagens, heavy metal, Hitler e totalmente contra a imigração, como se tudo fosse bom em portugal e mau lá fora, a mesma forma que não é tudo bom lá fora e há imensas coisas e pessoas fantásticas no meu país que é Portugal, um dos mais antigos Estados do mundo.
Mas mesmo que que não concordemos, temos de reconhecer duas coisas.
Em primeiro lugar, são inteligentes.
E em segundo lugar, são políticos a sério: perfilham uma ideologia e defendem-na de forma activa. Mesmo não concordando, reconheço isso, sobretudo quando os restantes partidos [tirando os comunistas] já não têm ideologias nem acção. Apenas abrigam os boys do costume. Esses sim, são os responsáveis pelo estado das coisas. Não os estrangeiros[*] só porque são estrangeiros. Há bons e maus estrangeiros. E bons e maus portugueses. A criancinha do telemóvel era claramente uma má portuguesa. E Gulbenkian foi um óptimo estrangeiro. A minha empregada é uma óptima portuguesa. A Ratazzi foi uma péssima estrangeira. Enfim...
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[*] Note-se no entanto que o excesso de estrangeiros que não respeitem as tradições locais podem significar o fim de uma cultura. Será Londres ainda inglesa? Falaremos disso em breve. Mas não se ache que defendemos a expulsão dos estrangeiros, como sugere o PNR. Partilhamos a preocupação, mas cremos que a solução passa pela integração e não pela expulsão. Sendo que a integração supõe o cumprimento dos deveres e tradicionais nacionais. Em Roma sê Romano.
'Arte, industria e força, tudo se emprega; tudo se põe em movimento contra o infeliz Estado: novos pretendentes produzem novos partidos: novos partidos fazem novos interesses: novos interesses geram novas paixões. Então, se perde de todo a tranquilidade, e a segurança pública'.
Fr. Francisco do Coração de Jesus Cloots WANZELLER [1793] Sermão que foi prègado na igreja da Real Casa Pia no Castello em acção de graças pelo feliz nascimento da Nossa Augustissima Princeza da Beira, em 16 de Maio de 1793 e offerecido ao nosso incomparavel Príncipe o Senhor D. João, Lisboa: Officina de Simão Thadeu Ferreira, p.12
[D. Maria Teresa Francisca de Assis Antónia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Miguela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu em Queluz a 29.4.1793 e faleceu em Trieste em 17.1.1864. Princesa da Beira,infanta de Espanha e Condessa de Molina, casamento em 13.5.1810 com seu primo o Infante Pedro Carlos de Bourbon de Espanha].
imagem: "ESTA PONTE FOY PRINCIPIADA NO ANNO DE 1793 EM QUE NASCEO A SERENISSIMA SENHORA PRINCEZA D. MARIA THEREZA, E ACABOU-SE NESTE ANNO DE 1795, EM QUE NASCEO O SERENISSIMO SENHOR PRINCEPE DA BEIRA D. ANTÓNIO.", Leiria.
A democratização da TV portuguesa começou com programas como o 'Praça Pública', da SIC, em que se discutiam problemas tão prosaicos como importantes para os portugueses, como o buraco da rua XPTO.
Hoje temos programas onde todos telefonam e berram à vontade. Género catarse.
Podia ser melhor; podia ser uma verdadeira [idílica? utópica?] maresia de opiniões, argumentos, discussão produtiva e inteligente com troca de experiências e aumento de resultados.
Mas não.
É, essencialmente, um saco de boxe, onde um jornalista desgraçado apanha com telefonemas de boys [ou forever-wannabe boys] de partidos, e/ou de maluquinhos, e/ou de pessoas que ainda não perceberam que Portugal é uma democracia constitucional, onde a polícia não pode espancar pessoas, onde os professores até são pessoas, onde os funcionários públicos não são todos ineficientes e malandros, onde os sindicatos não são oportunistas, onde nem todos os empresários são honestos, onde nem todos os políticos são tachistas e corruptos.
O espectador-tipo que telefona para esses programas é, no mínimo, um português reaccionário ou uma dona de casa ressabiada. Um pseudoempresário que acha que o recibo verde é bom e igual para todos, sejam trabalhadores independentes ou não. Onde os esquerdistas comem todos criancinhas ao pequeno almoço e onde o PNR é bom porque diz aquilo que 'os portugueses pensam mas não dizem'. Um reformado que acha que a pena perpétua é coisa fraca e que a pena de morte é que é boa.
Preocupa-me o ódio e o tom básico e simplista com que falam os telespectadores, que parece resultar de um qualquer trauma que ultrapassa a questão do analfabrutismo nacional e ser sintomático no submundo deste país, que é o meu.
Ódio à função pública, aos políticos, aos sindicatos, aos emigrantes. Ódio à vida em geral.
Nao sabemos. Os ingleses tem a vantagem de colocar sempre o partido do politico que fala na TV ou num jornal: em regra, sendo deputado, colocam a expressao MP, seguida de C ou L, seja Conservative ou Labour [sim, tambem ha liberais democratas, que me merecem estima].
E nos EUA tambem: D for democrats, R for Republicans.
Seria interessante fazer isso em Portugal. Mais do que em epoca de eleicoes, parece-me importante saber quem e quem durante os mandatos. Se o Presidente da Camara de Faro fala na TV, ou na Radio, ou a um jornal, interessa-me saber qual o seu partido.