14 julho 2006

Cartoons, Maomé e Liberdades


Espera-se que quando este post for publicado já tenha acalmado a histeria dos cartoons dinamarqueses que ilustram Maomé.

Este caso parece insólito, mas não é.

Num jornal de clara orientação política num país que não é conhecido pelos extremismos [e que na sociedade internacional é, mesmo, digamos, um Estado discreto], foi publicado um cartoon que viola as regras religiosas -- e de Estado, no caso -- da cultura muçulmana.

Percebe-se que haja uma reacção muçulmana. Afinal um católico também não acharia muita piada a um cartoon islâmico retratando os apóstolos numa orgia, por exemplo.

O que é discutível é:

1. Tomar como agressor não o criador e o editor do cartoon, mas o país onde tal sucedeu;

2. Violar as regras de direito internacional [e de 'boa educação'...] incendiando uma missão diplomática, entre outros eventos menos simpáticos por todo o mundo.

No primeiro caso, isto apenas revela o fosso cultural, político e religioso entre o mundo muçulmano e o mundo dito Ocidental. Que vai ao ponto de considerar que todo um Estado [lei-se a Dinamarca] é responsável por um cartoon de um jornal que nem sequer tem distribuição mundial.

No segundo caso, o recurso à violência, causando danos materiais e humanos, e criando instabilidade e uma crise diplomática.

Isto porque o cartoon não criou uma crise diplomática.

Tal apenas sucederia se o cartoon tivesse sido publicado num jornal oficial, ou de alguma forma com um intento político internacional, o que não parece que tenha sido o caso.

Percebe-se bem a revolta dos crentes em Maomé. E nem se entende que deva contra alegar-se com a liberdade de imprensa. Antes dessa estão os direitos humanos e a religião é um deles.

O que não se percebe são os meios para canalizar essa revolta.

Entendam-se, meus Senhores.


DELACROIX [1849-50], óleo s/tela, Art Institute of Chicago

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